segunda-feira, 3 de novembro de 2014

I’m sorry about your book



Em uma quinta-feira qualquer de outubro, a noite parecia seguir o curso normal da monotonia, se não fosse pelas companhias fora do comum.

Foi uma noite daquelas, das quais nada se espera além de um porre e uma fração a menos de vergonha na cara. Ela se vestiu como gosta, com um vestidinho preto rodado de rendas, um blusão jeans para mascarar os bracinhos rechonchudos. All Star brancos nos pés e a confiança de ser quem é que ela levou para dançar. Naquela noite, uma noitinha qualquer.

É um clichê dizer que quando menos se espera que algo aconteça ele acontece, mas foi assim, não apenas em um, mas em diversos episódios da vida dela. Naquela noite ela não reclamou a música, não resmungou dos frequentadores. Não era sua atmosfera favorita. Não tocava Bob Dylan, ninguém cantava Band Of Horses.

Naquela noite, na noitinha, todos os homens da cidade pareciam ter concordado de ir ao mesmo bar. Ela circulava pelo salão, livre de timidez, livre de bloqueios. Se espremia entre a multidão por uma cerveja, mais uma. E ela viu entrar, talvez o personagem mais atípico da temporada. Ela percebeu, o cara era forasteiro, e a aparência exótica ganhou sua atenção, e a de todas as outras mulheres num raio de 10 metros.

Um dia no passado, ela ganhou uma aposta para falar com um rapaz, por uma merreca. Naquela noite ela não precisava provar nada a ninguém. Ela disse “Hi!” ele respondeu. Se conectaram, se beijaram e ficaram juntos. Quando coisas improváveis acontecem o mundo parece ganhar um ponto a mais na tabela do sentido.

O mundo não é perfeito, não se pode negar. Ela foi convidada gentilmente a não ficar até amanhecer. Quarto de hospedes. Tudo bem, ela entendeu, mas com aquele gênio ela precisava de algo mais para fazer a momento ter valido a pena. Algo que a revelasse como alguém não descartável, e que ao mesmo tempo lhe desse tempo extra para fazer, quem sabe, tudo de novo.

Foi um ato autentico. Imprudente, talvez. Um gesto amador. Surrupiou uma edição The Catcher in the Rye e guardou até o dia seguinte.  O que restou foi um suvenir impróprio e um dilema sobre devolver ou não devolver. Se entregou. I’m sorry about your book. Quem se expõe desse jeito?


O livro voltou ao lugar que pertencia, mas não pelas mãos da boba honesta. O motivo real do afano ninguém nunca vai saber. Escreveu um bilhete, “Sorry”. Desculpas aceitas. Ela ganhou uma história para contar sobre uma noite que não significou nada e significou tudo. Fim. 

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Sobre nós

Um turbilhão de lembranças se ascende na memória, é difícil não desatinar. Olhos marejam e personificam a dor da saudade.

Foram meses que passaram como um vendaval. Deixaram tudo no chão, aos pedaços, pelos cantos. Foram meses curadores, reviveram sonhos, despertaram vontades.

Uma chacoalhada do mundo. Quem diria. De repente tudo desaba, mas é para recomeçar. Como a canção, que milhares de vezes embalou as mãos, as vozes e os cabelos ao vento. Todos juntos, iguais como um só. Iguais feitos um para o outro.

A vida agora incerta vai dançando ao embalo das lembranças, engasgada com a saudade, motivada pela esperança.

Feito um livro em branco. Num piscar de olhos e você já não é mais o mesmo.


Medos e piras. Amor e amizade. Desafios, erros, acertos e novos trajetos. Uma vida para recomeçar, renascer, reviver, recordar e fazer acontecer. 

Aquilo que vem e fica para a vida inteira.