Quem é que vai dizer a
verdade quando essa música acabar? Eu poderia transformar todas as minhas
lágrimas em canção. Ninguém iria notar.
Ninguém negaria que o tempo
passa através de mim e leva milhares de pedaços invisíveis. Eu me sinto velha,
mas nunca sem esperança.
É essa vocação espetacular
de ignorar o fim inevitável de todos os dias e continuar buscando a felicidade que mantém de pé.
A noite cai como sombra fina
e a gente floresce ao amanhecer. Um dia a mais e um dia a menos parecem
coisas tão similares.
E na madrugada, meus olhos
se abrem para o que está distante o bastante para não existir e ao mesmo tempo tão
forte para me tirar o sono. É o vício que a alma acalenta. O clamor eterno pelo
impossível. A vontade de querer viver eternamente na memória, na alma, no corpo,
nos braços. O talento de querer ser o amor de alguém.
E nessa estrada desconhecida
da vida, o veneno também é o remédio. Surpresas, fadiga, flores que morrem,
plantas que renascem, samambaias que lutam pela vida na minha área de serviço e
meu coração, que não tem olhos, mas enxerga o que pode ser.
E a dor que nos desmonta é a
mesma que junta nossos cacos. É viver um dia de cada vez, é renascer todos os
dias. É querer mais e mais e não ter medo de se entregar.
É a impavidez do amor, que eu
e você nascemos para ter. A gente tem o dom de se refazer.

