segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Talento



Quem é que vai dizer a verdade quando essa música acabar? Eu poderia transformar todas as minhas lágrimas em canção. Ninguém iria notar.

Ninguém negaria que o tempo passa através de mim e leva milhares de pedaços invisíveis. Eu me sinto velha, mas nunca sem esperança.

É essa vocação espetacular de ignorar o fim inevitável de todos os dias e continuar buscando a felicidade que mantém de pé.

A noite cai como sombra fina e a gente floresce ao amanhecer. Um dia a mais e um dia a menos parecem coisas tão similares.

E na madrugada, meus olhos se abrem para o que está distante o bastante para não existir e ao mesmo tempo tão forte para me tirar o sono. É o vício que a alma acalenta. O clamor eterno pelo impossível. A vontade de querer viver eternamente na memória, na alma, no corpo, nos braços. O talento de querer ser o amor de alguém.

E nessa estrada desconhecida da vida, o veneno também é o remédio. Surpresas, fadiga, flores que morrem, plantas que renascem, samambaias que lutam pela vida na minha área de serviço e meu coração, que não tem olhos, mas enxerga o que pode ser.

E a dor que nos desmonta é a mesma que junta nossos cacos. É viver um dia de cada vez, é renascer todos os dias. É querer mais e mais e não ter medo de se entregar.

É a impavidez do amor, que eu e você nascemos para ter. A gente tem o dom de se refazer.

Corpo no espaço

 
 
 
Um dia você se descobre dançando conforme a música do universo. Um dia, você se olha no espelho e se vê a vítima perfeita da contradição. Você, um grande paradoxo do universo, sempre negando seus instintos, podando seus sentimentos e desperdiçando chances. Querendo no fundo, um par de oportunidades para sentir.
Quem é a figura no espelho. A alma tem correntes?
Universos ambulantes falando sempre o contrário do que sentem, acumulando remorsos, escondendo qualquer resquício que deixe transparecer fragilidade, diante do inacreditável e piegas sonho comum de felicidade.
O mundo é um só, ele rodeia camas diferentes, mas no seu íntimo queria um leito quente e único, onde nenhum outro corpo estranho pudesse chegar.
É como um grande protagonista de uma peça que encena a frieza. E dane-se o sentimentalismo e qualquer ruído de palpitação. O que se quer é emoção, suor e corpos entrelaçados fisicamente mas desligados totalmente das coisas abstratas, não palpáveis e intocáveis feito as coisas do coração.
É só fluxo, fluído, massa, corpo, calor, ardor, leveza e nada mais. Fácil falar, e isso, o mundo tem demonstrado bem. É fácil tornar a alma cativa da boca, que fala sem parar a contradição absoluta, e fazer em abismo entre o que a boca diz e o que o coração sente.