terça-feira, 12 de junho de 2018

Novorizonte - Conto



Parte I - A Livraria

Nas reuniões familiares ela brilhava como a promessa de um futuro fabuloso. Helena tinha herdado dos avós uma pequena herança, a qual só teria acesso aos 18 anos. Não foi uma vida difícil. Aos 20 anos comprou uma pequena livraria na esquina de casa. O antigo proprietário do lugar era um viúvo muito velho, que se sentava nos fundos da loja com um livro que começava a ler, mas nunca prosseguia por causa dos cochilos constantes. 

O velho não tinha filhos, fora casado por 50 anos com uma escritora audaciosa em um tempo em que ser mulher rimava com cuidar de casa. Depois da morte da esposa, o velho montara a livraria com a ideia inicial de compartilhar as obras de autores que a esposa mais gostava. Com o tempo passou a vender também livros usados, por encomenda e até mesmo a fazer pequenos empréstimos para leitores assíduos.

Helena era uma dessas leitoras. Num fim de tarde de verão, o velho Abel estava quieto no fundo da loja. Helena adentrou por entre as prateleiras cuidadosamente organizadas e ouviu o velho resmungando. “Uma vida inteira vivida para ficar largado à poeira e a escuridão”.

Soava poética essa reclamação. Helena deteve os passos para não constranger o velho. “Se for devolução é só deixar no balcão”, disse ele irritado. Estava claro que Abel já tinha vivido o luto o suficiente para não desejar mais estar ali.

“Está cansado, Abel?” – perguntou Helena com um sorriso tímido.

“Estou fatigado, talvez seja o calor. Ou a velhice” - disse ele. “Leu todos os livros? Você é uma devoradora de livros, menina. Não quer comprar a livraria?”.

A pergunta surpreendeu Helena, mas certamente a resposta também assustou o velho. Helena não tinha usado nenhum tostão da herança dos avós e o que tinha era suficiente para comprar a livraria e pagar os estudos. “Na verdade eu quero sim”, disse ela coçando a cabeça.

Abel escolheu alguns livros favoritos e entregou as chaves à nova dona da livraria. Helena estava timidamente feliz com a reviravolta. Agora poderia se mudar definitivamente para o quartinho nos fundos da loja. Só não esperava que os pais reagissem com tanto horror à novidade.

Os pais de Helena já tinham sonhado com o futuro da filha desde que ela corria fantasiada de fada madrinha ao redor da mesa de jantar. A mãe, Janet, tinha abdicado da vida profissional quando descobriu a gravidez. O pai, Albert, era um corretor de imóveis que já tinha vivido sua época de vaca gorda um dia no passado. Os dois se deleitavam enquanto deslumbravam um futuro em que Helena seria a rainha do mundo, uma executiva imponente com o melhor emprego, os melhores contatos e o melhor salário, com o qual poderia garantir aos pais uma vida confortável. Contas pagas, família feliz. É terrível pensar em pais que planejam filhos como quem escolhe os números da sorte na loteria. Os pais de Helena ainda amargavam o fato de a filha ter escolhido estudar literatura na universidade.

Os planos de Helena eram definitivamente incompatíveis aos dos pais. Ela queria ser professora, ensinar sobre a língua e linguagem, escrever livros, ler poemas, tocar piano, pintar panos de prato, criar plantas e um gato.

“Bom, isso pode soar um pouco seco e difícil de engolir, mas eu comprei a livraria do Abel. Tem um quarto lá nos fundos e é o espaço ideal para mim. Vou me mudar amanhã”, contou ela calmamente diante dos pais perplexos.

“Aquela livraria caindo aos pedaços? Aquilo não vale o investimento! Quanto você pagou naquilo?” – perguntou o pai com o rosto vermelho e as veias do pescoço saltando agressivamente.

“Minha filha, você usou a herança da sua avó para comprar um prédio velho” – disse a mãe com voz apelativamente chorosa.

“O que importa para mim é o que está lá dentro. Ainda sobrou um bom dinheiro. Eu tenho planos para aquele lugar, ok?”.

Helena tinha jogado um grande balde de água fria nas pretensões dos pais. No dia seguinte, juntou seus pertences em caixas de papelão e desceu a rua em direção à nova casa. Ela estava feliz. Sentia crescer dentro de si uma sensação de liberdade e esperança. Queria trabalhar na livraria e renovar os exemplares, pintar a fachada de azul turquesa, mudar o nome, limpar as vidraças, convidar pessoas, habitar o lugar.

Mais tarde, na universidade, distribui convites aos colegas de classe, professores e aos amigos queridos. “Inauguração da Livraria da Rua Consolação – Sem nome. Quarta, dia 03, às 18h”.
Se for possível alguém explodir sem ser despedaçado, era essa a sensação que habitava Helena desde a compra repentina da velha livraria, explodindo de felicidade.

Mais que depressa começou os preparativos para a inauguração da livraria sem nome. Luzinhas amareladas, cadeiras reformadas, pequenas mesas redondas e uma fachada azul turquesa. Tudo por uma pechincha. Helena catou quadros, molduras e pequenos vasos de plantas artificiais numa lojinha de antiguidades e brechó da rua detrás.

Enquanto fazia os retoques da pintura da fachada, o pai de Helena chegou. Com as mãos nos bolsos disse calmamente. “A gente cria um filho com o bom e o melhor para ele fazer uma asneira dessa”.

A mágoa tinha se instalado no seio da família. “Uma asneira que está me fazendo feliz, pai. Qual é o problema?”, indagou Helena chateada.

“Minha filha, você poderia ser o que quiser. Uma doutora, uma executiva. Livraria? Professora? Isso não dá futuro para ninguém”. O pai estava decidido a convencer Helena de desfazer aquela trama literária.

“Me dá três anos, pai. Três anos e se eu não fizer isso aqui funcionar eu faço o que você e a mamãe quiserem”, disse ela estendendo a mão suja de tinta para o pai.

Os dois apertaram as mãos. O pai entrou no carro e se foi. Helena sentou e chorou na calçada. 


*Próximo capítulo em breve.

sexta-feira, 9 de março de 2018

Achados & Perdidos



Achei esse texto perdido no meu e-mail. Data: 22/03/2012: eu tinha 23 anos. 
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Estava lendo um post, 100 Facts about me, no blog de uma menina querida.   
Não é estranho o fato de eu ter um momento de choro, mas nesse momento eu tive um pequeno e especial momento de choro. Lembrei de como eu era quando tinha a idade dela. 16.


Na verdade, me vi naquela lista. Eu vi a mim mesma. Só que agora, aos 23, eu perdi muitos daqueles defeitos e qualidades, que na verdade só agora percebi que os amava, e que o conjunto de todos eles é que me fazia ser quem sou, ou era.

Eu acredito que o ser humano se conhece. Sabe quando está perdendo a linha. Talvez, eu tenha me deslumbrado com o mundo novo que passei a ocupar. A paisagem é tão atraente e dificilmente resistível...

Entre lágrimas e pensamentos, me pergunto em que ponto da vida comecei a errar. Que parte do caminho foi a minha perdição. Em que onda desse mar eu comecei a naufragar.

Pode parecer dramático e depressivo demais para você, mas minha vida já foi muito mais interessante aos 16.

Quando eu usava qualquer papel que eu via pela frente para descrever meus sentimentos através de versos. Quando eu cantava e sonhava ser uma estrela. Quando eu acreditava, que um dia eu iria vencer na vida e dar às pessoas que amo coisas lindas e incomparáveis.

Eu falava muito comigo mesma, me ouvia. Tenho uma caixa escondida em casa, cheia de pequenos papéis ocupados por poemas. Carta de amor, nunca mais escrevi. 

É a idade? É a crueza do mundo? Sou eu? Será o tempo?

23 anos e uma lista de afazeres que eu queria adiar. 16 anos e uma lista de coisas que eu queria ser.

Em algum momento da vida a gente para, pensa e descobre que a vida se modifica. 

Parte do que um dia quis, hoje é parte da minha realidade. Parte do que eu não planejei, me consome no instante.

Voltar no tempo ou parar nele? Seguir se consertando, tentando buscar a felicidade, feito os peregrinos em busca da terra prometida?

Seguir. Sim. Seguir. E deixar as lembranças, que se instalam no peito como velhos amigos, serem um remédio. Lembrar de mim aos 16 não me fez mal, me fez tão bem. Ainda sou ela, mais velha, mas sou.

Sou ela com 16, mas com 20 e tantos anos.

Sou um corpo e uma boa alma. Sim, ainda sou menina, só que com algumas marcas. No fim, sou um Eu feliz.