quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Vinte e sete



A vida é essa torneira aberta que jorra, inunda  e envolve o tempo num circulo vicioso de desperdícios. 

Essa ideia dos desperdícios tem dominado meus pensamentos nos últimos tempos. "Eu deveria ter sido eu há muito mais tempo". É um calvário que eu atravesso todo santo dia enquanto o tempo morre e eu me aproximo cada vez mais do momento em que vou sentir ter falhado como ser humano.

Esses e outros pensamentos incrédulos e negativos vivem na cabeça como os morcegos no sótão do edifício Beira Rio. Eles moram ali, me incomodam e eu não posso simplesmente ignorá-los. Porque apesar de desagradáveis, eles são reais. São o reflexo de um erro de percurso que ninguém consertou. De um buraco no telhado que ninguém tapou.

Chego aos 27 anos dançando sem pressa com meus próprios demônios, experimentando o que é realmente tomar o controle da própria vida. Sobrevivendo à minha solidão, a solidão que eu me impus. 

Pensar no passado e nos primeiros anos da vida adulta na casa dos 20 traz um gosto difícil de definir. Que bom que cheguei até aqui. Que bom que superei a indolência dos meus 13, 14, 15 anos de idade. Eu não imaginava jamais que iria chegar tão longe. Mas ainda não é o bastante. Ainda não há nada relevante realizado. Esse é o mostro que cresce com os anos.

É um "tão perto mas tão longe" que eu tenho carregado comigo. E eu olho para minhas mãos e pés e não vejo correntes. Não há amarras. Eu apenas esqueci de sair do lugar em alguma parte do caminho.

Meu pai disse "Deus abençoe e te ajude a realizar teus planos". Eu chorei. Chorei porque percebi que eu não tenho plano nenhum. 

Vinte e sete anos e uma sacudida. Não é um dia qualquer. É tão silenciosamente importante. Eu vibro calada a nova fase. 

Esse dia chegou para me dizer que não importa o tempo que leva, a vida não nos deixa desavisados. Eu vou seguir em frente, continuar e continuar. 

E como diria Florence And The Machine "como as estrelas perseguem o sol pela colina brilhante, eu irei conquistar. De repente, eu supero. Dissolvendo como o sol se pondo".
É sempre hora de recomeçar.


quarta-feira, 29 de julho de 2015

Solitude



Eleger uma maneira criativa de contar sobre a nova temporada de vida que se estabelece parece uma tarefa impossível, não porque seja complicada de narrar, mas porque me falta ainda empatia suficiente para refletir a respeito. Hoje as emoções vêm e vão. Leves, pesadas. Conturbadas, especificas, desconhecidas.

Compreendo essa peripécia da vida como um porta que se abre e que leva à experiência genuína do dia após dia de uma luta solitária em busca do amadurecimento.
É isso. Crescer. Talvez esse seja o principal intento dessa página que se abre, branca e imprevisível.

A solitude arrumou a casa para o momento, muitas vezes adiado, em que as culpas, os medos, os erros e as responsabilidades terão seus significados questionados.

A sensação de derrota pelo tempo desperdiçado em rotinas inconscientes costuradas pelas linhas firmes do comodismo, sempre visita a casa no final de um dia difícil. É uma companhia assídua.

"Eu deveria ter sido eu há muito mais tempo". Eu sempre julguei o remorso como a pior sensação existente na face da terra. Eu posso seguramente dizer que eu estive enganada. A sensação de ter desperdiçado a juventude sem ter realizado nada realmente relevante é como uma pequena morte várias vezes ao dia.

Você não acorda um dia simplesmente disposto a encarar o mundo. A maior parte da vida está mergulhada no comodismo. Mas no dia em que se acorda do sono lânguido (queria usar essa palavra de um jeito ou de outro) você sofre e sente muito, mas também cria a coragem de fazer valer o tempo que ainda lhe resta.

E agora, segurando na mão de Deus, caminhando como única responsável por mim, pelas contas pagas e pelo que acontecer no caminho.

Não há mais tempo a perder, o crescer chama. E você se lança no caminho que lhe parece o certo. Você segue e não sabe se isso dará realmente certo, mas você está ali na sua própria estrada.


É a hora do número solo.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

A temporada do coração perdido




Trilha sonora: And I - Portugal The Man. 

Ela esculpiu um padrão de amor imaginário que ninguém era capaz de oferecer. Por mais que ela soubesse que aqueles amores eram diferentes nos significados, ouvir um "eu te amo" era como receber uma dose de morfina na veia.

Por muito tempo ela caminhou sozinha aceitando e sobrevivendo com menos do que imaginava merecer. Vaca mesquinha. Era um amorzinho confuso aqui, um amor escangalhado ali, um amor incompleto acolá. Amores. 

Um coração em pedaços em busca de um pouco de afeto. 

Vítima das próprias expectativas. Vítima da própria intensidade. Medo de viver uma vida inteira sem ter com quem trocar amor, paz e sentimento. Medo de ficar só. Medo de não se bastar para ser feliz. Medo.

Ela se entrega numa velocidade alucinante e dá de cara com uma parede: "não tenho muito para te oferecer. Só tenho isso".

Pegar ou largar?
Orgulho. Quero mais.
Preciso?
Não.
Quero?
Sim.

Amargando derrotas. Cansando pretendentes. Sofrendo sem saber que a vida pode ser tão bonita se a leveza for maior que o peso do significado das coisas.

Amor é amor, caralho. Pensa. Repensa. Foda-se.

Um amor disse assim: "Vocês está muito ligada aos conceitos". Sim.

Esqueceu de viver o que é palpável para questionar o invisível.

Um utópico amor padrão que coração nenhum é obrigado a sentir.

Se esqueceu que pelo mundo há milhares de outros corações perdidos também. Vagando, se esforçando para sentir.

Se esqueceu que cada um ama do jeito que pode e sabe.


Não percebeu que dar o que se tem é muito mais precioso do que não dar nada. Dar o pouco que se tem é melhor do que não ter nada para dar. 

Quando viu, era tarde. Já tinha se perdido outra vez. 

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Coleções do dia



A música do despertador dispara às 7h05. Blind Pilot começa a tocar The History That I Heard, e ela acorda feliz ouvindo uma música que gosta.

"Oh porque a história que ouvi é que as pessoas estão entediadas". ok.

Maria sai de casa todos os dias com os cabelos desgrenhados e sem um pingo de vergonha disso. Não faz frio, mas ela usa um casaco denso porque se sente atraente e envolvida numa aura européia. Ela nunca foi à Europa.

Tem dias em que ela simplesmente esquece da roupa que usou no dia anterior, e a repete. E quando ela tem um lampejo na memória, ri sozinha no elevador do trabalho. Louca.

Ela pensa: "Ótimo, agora todos vão pensar que virei a noite na rua, o que é extremamente interessante para equilibrar minha fama de solteirona convicta".

Hoje ela acordou com um pensamento revolucionário na cabeça: pão de queijo e capuccino. Ela ignora a ideia, pega um cafezinho preto na copa da firma, pão com manteiga e a vida parece estar indo muito bem assim.

Maria é daquelas que se incomoda com barulho nas primeiras horas da manhã, resumindo sua tolerância à própria voz e as músicas da playlist favorita. E ali, naquele momento, com os fones nos ouvidos, ao som de Cath, do Death Cab For Cutie, o mundo parece um lugar tão fácil de estar.

"Nada como ser surpreendida cantando (alto) no trabalho" ela pensa. A chefe entra na sala e observa aquela maluca beleza fazendo uma performance digna de um prêmio, envolvendo a sala numa cantoria desafinada, constrangedora e feliz.

- Bom dia - diz a chefe.

- Oi? - pergunta Maria tirando um dos fones do ouvido.

- Porque você está com a mesma roupa de ontem? - questiona a chefe com um risinho acusador.

- Essa é a minha roupa favorita. Ela realmente me cai muito bem, tenho um carinho muito grande por ela. Ah, já te enviei os textos por e-mail.

O dia segue sendo tolerável igual aqueles encontros de família em datas comemorativas. Você não tem outra escolha além de encarar a festança, socializar com as tias da sua avó e esperar até a meia noite para poder ir embora beber com seus amigos, ou simplesmente ir para casa ver uma maratona de South Park na TV.

A hora do almoço é sempre um filme dramático com um fundo musical sacana. Maria come na frente do computador, ou em pé, encostada na pia da cozinha da firma. Ela ali, se vendo solitária devorando um filé de peixe grelhado pensa "que caralho estranho é comer sozinha". Comer no escritório é a melhor opção para alguém que trabalha longe de casa. Você economiza tempo e dinheiro, apesar de morrer um pouco cada vez que fala sozinha enquanto come. 

Às 14h termina o horário de almoço. Ela reúne as forças que tem contra a preguiça e caminha até a loja de livros no quarteirão do escritório. Ela tem meia hora. Ela entra na loja, a mesma de sempre, e inicia sua peregrinação pelas sinopses dos livros. Cria uma lista mental de quais compraria se tivesse o dinheiro. "Nossa, esse aqui é bom. Vou comprar mês que vem. É meio caro, né?! Bom, não se deve ter pena de pagar por um bom livro. Caralho! 14h20! Tô atrasada!" Ela sempre se perde naquele mundinho.

Segundo turno de trabalho. Agora faltam menos de 4 horas para o fim do expediente. Textos prontos antes do previsto. Ela se sente bem quando produz. Se sente útil.

O telefone toca, é a Juliana. A amiga.

- Vamos sair hoje depois do trabalho? Aniversário do Eduardinho! Te pego às 18h30! - diz a amiga, desligando logo em seguida.

- Ei Ju, não vai dar! Tenho planos para hoje (comer e dormir) - A ligação já tinha terminado.

Bom, não parece tão má ideia. Fim do expediente.

Às 19h elas chegam em um pub lotado de pessoas extravagantes. Maria pensa "Porra, estou com a mesma roupa de ontem". Eduardinho recebe as duas na mesa, onde outras 10 pessoas já estão bebendo, fumando e falando sobre política. Maria começa a beber. Depois da terceira cerveja ela pega a quarta. Daí em diante, preparem-se.

A conversa do momento é a aparência incrível da duquesa Kate Middleton após o parto. Maria pensa "bom, agora é hora de eu ir ao banheiro".

Maria está bêbada. Chega ao banheiro, se olha no espelho e diz: "Oi moça, você vem sempre aqui? Escuta, essa não é a mesma roupa de ontem? Ela fica muito bem em você. Gostosa. Nossa você é bonita heim?! Tem namorado? Ah, não, não, estou solteiríssima! HAHAHAHAHA".

Ela está fazendo caretas na frente do espelho e alguém entra no banheiro. Ops, também já havia alguém lá quando ela entrou. "Acho que essa é a hora que eu sumo daqui" ela pensa. Sai rindo por entre a multidão. Uma música muito boa começa a tocar. Ela vai para frente do palco, e começa a dançar como se o universo todo fosse aquela pista. 

Ela se basta naquele momento, e depois vai para casa disposta a não repetir a mesma roupa no dia seguinte.





segunda-feira, 27 de abril de 2015

A descabida Malu


Ela não é uma garota à frente de seu tempo e costuma dizer que outras mulheres na história já desempenham bem esse papel. Malu fuma, bebe, fala palavrões e se apaixona na mesma velocidade alucinante com que entra e sai das crises de ansiedade. 

Malu é engraçada, quando não está de mau humor. Ela é o que alguns chamam de romântica incurável. Detesta esse termo, é piegas e idiota como mudar a voz para falar com crianças e animais. Adora animais. Adora crianças. Contanto que não tenha que lidar com eles. Lhe falta um pouco de carisma até para com os seres humanos mais crescidos.

Pode-se dizer que essa jovem mulher de 27 anos tem vícios de comportamento muito estranhos e controversos. Um certo dia decidiu procurar um psiquiatra para se certificar de que não, não possuía nenhum tipo de distúrbio mental, qualquer tipo de psicopatia e afins. O médico sorriu - devia ouvir muito disso o dia inteiro - fez algumas perguntas de praxe e chegou a conclusão de que ela não era louca, apenas ansiosa.

O diagnostico dos amigos é de que se trata de nada mais nada menos que medos e piras. Um conjunto de emoções inexplicáveis com as quais ela não sabe lidar, principalmente no que diz respeito às coisas do coração.

Malu estava sempre carregando os problemas do mundo sobre suas  costas. Pequenas e grandes, mínimas preocupações daqueles a quem amava tornavam seus dias escuros e difíceis por causa da sensação de impotência. O médico disse que ela vivia a vida do vizinho. A frustração  de não poder resolver a vida de todos.

Os problemas com a ansiedade foram amenizados com remedinhos que, segundo o Doutor Michel, ajudariam a regular as emoções dela. Contudo, Malu precisava de muito mais que pílulas para lidar com os conflitos do próprio gênio. Grande parte dos problemas era de ordem comportamental.

Ela não entendia. Havia tido uma infância tranquila, escalando muros, subindo em arvores, fugindo de casa de vez em quando. A adolescência não chegou a ser um tormento. Era uma aluna aplicada na escola, brilhava no teatro e nas apresentações do final de ano.

Não tinha nenhum motivo para ter aquele vazio insistente na alma. Talvez ela gostasse de se ocupar das tristezas alheias para esquecer das próprias, tristezas que nem sequer tinham nomes.

Houve um tempo em que ela bebia demais para lidar com o vazio. Copo cheio, alma vazia. "Tanto faz", ela pensava. Havia dias em que tudo que ela precisava era acender um cigarro, fumar e calar a boca. A voz da razão, no entanto, continuava ali, sempre presente, insistindo 'sai dessa, vagabunda'.

Aos 25 anos, Malu era uma espécie de caçadora de memórias. Uma vez ela conheceu um homem, desses que estão de passagem, em uma festa que tocava um tipo de música que ela não costumava ouvir por opção. Ela dormiu com o moço e roubou um livro que estava na cabeceira. Se arrependeu, e mandou alguém entregar o livro na casa do rapaz no outro dia.

Malu era da vida, era de todos. Pertencia a si e ao mundo. Talvez não pertencesse tanto a si. Um belo dia comprou passagens de avião e foi procurar um namoradinho, com quem não tinha nada em comum. Ele gostava de rap, academia e vodka com energético. Malu gostava de rock, livros, vinhos e cerveja. Até hoje ela se pergunta que tipo de droga estaria usando quando pensou que estava apaixonada por ele.

Houve também o episódio do confeiteiro. Ele tinha tatuagens interessantes, mas cuspia quando falava. Malu ignorava o pequeno detalhe. "Ele já viajou o mundo. Dar umas cuspidinhas enquanto fala não é tão relevante". Por algum motivo ela acreditava que "o que viesse estaria bom". Malu voltava para casa com cheiro de baunilha no cabelo e nenhum amor no coração.

A nenhum desses moços Malu amou. Essa frustração se juntou às outras. Ela se sentia apenas mais uma solteira se convencendo de que estava bem sem ninguém. Com o tempo, de tanto fingir, ela até chegou a acreditar.

A melhor amiga dizia, "como você quer que algo dê certo se você só escolhe as pessoas erradas?". Boa pergunta. Uma entre milhares de outros questionamentos para os quais Malu não tinha nenhuma resposta decente.

Malu podia ter lido os romances mais complexos da literatura moderna, mas não tinha nenhum senso de direção quando o assunto era escolher um homem. Ela estava cansada de lidar com figuras inanimadas. Homenzinhos sem pé e nem cabeça. Malu estava cansada de se doar demais a uma pista de mão única.

Todo os dias, às 9h, o despertador avisa que é hora do remédio. Ansiolítico, 20 mg por dia. Malu pensa "essa porra não está fazendo efeito nenhum". Um cigarro, um livro e um coração atordoado por ter tanto amor para oferecer e ninguém decente para receber. Malu levantava de madrugada, andava pela casa como se perseguisse a solução para a solidão.

Naquela sexta-feira, no final do dia, Malu comeu um macarrão instantâneo encostada na pia da cozinha. Depois, ela  desceu as escadas do prédio e foi ao mercadinho da esquina, onde comprou 3 garrafas de vinho tinto e duas carteiras de cigarro. O plano era subir e beber sozinha até cair embriagada no carpete da sala.

Tudo estava indo muito bem. Malu se movia pela rua como se realmente acreditasse que era invisível. Descabelada, sem maquiagem e com um pijama velho com estampa de folhas de maconha. Ao chegar na portaria do prédio, Malu tropeçou na escadaria e todas as garrafas de vinho se quebraram, formando uma mancha imensa no chão. "Puta que pariu, caralho. Nem isso eu faço direito".

O vizinho do 302, jovenzinho barbudo, que sempre desejava bom dia quando se cruzavam no corredor, para o qual ela sempre estava mal humorada demais para dar atenção, viu Malu ali, desgrenhada, chorosa, catando os cacos das garrafas.

"Noite ruim Malu? Escuta, to indo no bar da horizontal, vai rolar um cover de Band Of Horses. Eu sei que você gosta, porque sempre escuto o som vindo do seu apartamento. Se quiser, a gente pode ir junto". Malu levantou a cabeça, olhou o vizinho e respondeu: "Desculpa, eu não sou muito boa com encontros, ainda mais quando estou usando essa pijama".

O vizinho insistiu. "Te compro outras três garrafas de vinho se você for comigo, usando esse pijama". Malu riu idiotamente. O vizinho estendeu a mão. Ela segurou, levantou e pensou "por que não?".

Malu foi com o vizinho ao bar da horizontal, vestida com o pijaminha com estampa de maconha. Quando chegaram, a banda havia começado a tocar Laredo. Aquela guitarra, aquele som. Malu acendeu um cigarro e olhou o rosto do vizinho. "Que cara legal" ela pensou. Será que...



segunda-feira, 13 de abril de 2015

Fisgada


Há uma linha invisível que te puxa para baixo quando você flutua. Há uma linha chamada realidade que te fisga e te tira do ar. Te prende os pés no chão. Te acorrenta.

O céu te recebe e te joga de volta. Os fios da razão. Os fios da descrença no amor. Os fios do medo.

Um dia, desses que nunca se espera, vai amanhecer sem aviso. Em um tempo de águas paradas há sempre uma visita inesperada. Um beijo surpresa da vida, que vai te despertar para a luta contra os fios que te prendem, que te impedem de acreditar, de viver o sonho, de se entregar.

São os pequenos casos impensáveis da vida subestimada. São as pequenas felicidades de ver em acontecimentos aleatórios, pontos costurados entre si que constroem a sensação mais perfeita do "isso era para ser". E será, o que tiver de ser. Será o que escolher ser.

Arranca os fios. Abre os braço, abre o peito. Entra nesse rio, deixa ele te movimentar. Flutua no ar, deixa ser o que tiver que ser.

Deixa as águas seguirem o percurso, deixa de lado as ideias antiquadas de como tudo tem que ser. Esquece o medo de desatinar.

Abre os olhos, abre os braços. Beija a vida com fervor. Um beijo infinito. Um beijo livre. Já não há mais linha que te prenda.




(Texto escrito ao som de Carvel - John Frusciante)

segunda-feira, 2 de março de 2015

Estranheza




A estranheza de viver a eterna sensação de que algo arrasador estar por vir. A iminência da não felicidade. 

O fim da vida sem a realização de algo magnífico além de somente ter existido no mundo.
É assim que ela pensa. É assim que são os dias. Frustrantes. Sem cor. 

Como é possível se fazer tão infeliz colocando na conta da vida e do mundo a responsabilidade de fazê-la feliz?! 

Vai saber. Vai saber por que ela deita a cabeça no travesseiro de noite e deseja largar tudo e viajar o mundo inteiro com uma mochila nas costas. 

Vai saber por que essa garota insiste em se entregar justo aos maus pensamentos na fila. Quem consegue explicar por que pra ela parece tudo sempre estranho. 

Uma festa. Um mundaréu de gente estranha rodeando, com os mais perversos e tristes sentimentos que se possa ter com um copo de álcool na mão. E todo esse mundo com o rosto feliz. 

Um cigarro. Uma garganta arranhada. Um dia de trabalho. Mais um dia de insatisfação. "Que Deus me perdoe a ingratidão" ela pensa.

 Mais uma aposta cega no jogo das ilusões amorosas que ela criou. Está com medo. Medo de ficar só. É tanto pensamento que se passa. 

Ela pensa em morrer, mas também pensa no que poderia perder ao partir. Pensa no que fazer. Parece tudo uma perda de tempo eterna. 

Coração quebrado no número 234. 

E se viesse um bebê? Meu Deus. Ai sim. Tudo ia realmente desabar. 

O que fazer quando você é seu próprio vilão. Quando você é o único personagem que bagunça a própria história. Não existe a pílula da felicidade. Só na música da Norah Jones. É só uma canção. Meu Deus.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Foi só mais um confeite



Ela é aquele tipo de pessoa que não consegue separar as relações físicas das relações emocionais. E é numa velocidade alucinante, ao som de Head Is a Flame (Cool With It), que ela já começa a projetar as mais utópicas possibilidades de ser feliz de uma vez por todas.

E num minuto, a nuvem de ilusão se dissipa e ela  deseja que o novo buraco negro, 2 bilhões de vezes maior que o Sol, descoberto pelos cientistas esteja em sua frente para um pulo sem volta.

A música no repeat. Portugal The Man tem muito a dizer.

"Bem, todos nós ficamos estranhos. E nós sabemos. Mas estamos tranquilos com isso"



- Foi só uma vez. Ele não vai me amar, eu sei. Não vai me pedir em casamento. Mas podia acontecer, podia.

O cheiro de baunilha ainda está no cabelo.

Ela divide o pensamento entre "será que ele vai me ligar" e "acho que deveria fumar um cigarro".

- É esperar para ver - diz a melhor amiga.

- Não vou esperar.

- Amiga você faz as escolhas que te fazem sofrer. Você cria expectativas para coisas fadadas ao fracasso.

Head Is a Flame (Cool With It) repetindo pela 15 vez.

- Não criei expectativa, só queria estar com ele de novo. Mas nada para mim dá certo, é sempre assim.

A capacidade que ela tem de se colocar solitária no centro de todo o sofrimento do universo irrita o amigo.

- Não se apega ô Julieta. Você precisa aprender! Outro dia conheci uma pessoa linda, me convidou para sair e disse que só me devolveria em casa no outro dia. Que queria dormir comigo. Foi legal, foi sensacional, mas depois de algumas horas ela olhou no relógio e disse "olha só, tu pode ir chamando um táxi e ir para casa?"

A música parou.
Existem pessoas que se combinam pelas alegrias. Existem pessoas que se combinam pelas tristezas.

Existem pessoas como ela, por exemplo, que ainda não perceberam que a vida não é como projetamos na cabeça.

Existe gente que se usa e usa os outros. Existe gente que tem muito amor para dar.

Tem gente que sabe lidar. Tem gente que não cresceu.

Tem gente que é só mais uma fatia do grande bolo que é a relação entre homens e mulheres.

Ela ficou sem palavras.

Confeitada e frustrada, porque ainda não aprendeu a se amar mais.

A música volta a tocar.


“Bem, todos nós ficamos estranhos. E nós sabemos. Mas estamos tranquilos com isso.
Também ficamos um pouco mais velhos, nesse dia e era. Mas nós lidamos com isso”

Um dia ela aprende.