A dor pode te deixar em pedaços. Já vi os meus espalhados pelo chão. Entre a vontade de ir e de ficar, resta sempre a dúvida: dá pra existir, resistir sem sair do lugar?
O que devasta é tão ambíguo, porque tira tudo de você e ao mesmo tempo te ensina a se refazer. Afinal, temos esse dom.
Até lá, até chegar no lugar imprevisível onde encontramos o alento, a viagem é dolorosa. Brilhar nos dias mais escuros é resistir. É dizer, estou aqui, agora. E nada pode me apagar. O lugar que nos cura é como uma riqueza escondida em meio aos escombros da vida.
Quando tudo desaba, quando tudo parece ter fim, quando tudo é lágrima e soluço, a gente encontra um brilho que está ali e, talvez, sempre estivesse, lá no fundo. É um brilho tímido, ali, esperando você perceber, no meio da escuridão, que há saída. Mesmo que isso custe tempo e espaço. Mesmo que as mágoas nos deixem cegos. Mesmo que o medo nos paralise.
Mesmo que o chão se abra sob nossos pés.
Quem somos, mesmo não sabendo como ser.
Quem amamos, mesmo não sabendo distinguir amor de outra coisa.
Mesmo que outra coisa seja o que precisamos. Mesmo que a gente se perca pelos caminhos de quem somos. Levantamos as mãos aos céus esperando uma mão macia nos puxar. É a vontade de ir. Que se choca com a vontade de ficar.
Há dores tão profundas, tão erradas, tão arriscadas e tão horrendamente sutis, que sendo quem somos, talvez fracos demais para perceber e encarar, tomam conta da nossa existência.
Não somos nossas dores, apesar de elas nos moldarem. Que formato quero ter? O que desaparece? O que resta? O que nunca vai embora? Quanto tempo dura para um coração sarar?
O coração de uma pessoa que insiste em ficar é digno de festa. Risos, aplausos. O coração, diversamente quebrado e recolhido aos cacos, é esse que nos faz levantar do chão sujo, sacudir os estilhaços e recomeçar.
Talvez isso tudo não faça sentido nenhum. Talvez nenhum mapa nos leve ao exato momento e lugar em que deveríamos ter ficado, ou deixado para trás.
Hoje a dor corrói, corrompe, apodrece. Amanhã, bem, amanhã é outro dia. Dor e castigo. Fracasso e redenção. Amanhã é hoje. Amanhã eu continuo sendo eu, mas diferente.
Porque não há dor que dure para sempre. Nem coração que não possa sarar suas dores. Nós temos o dom de nos refazer.
