quarta-feira, 6 de maio de 2015

Coleções do dia



A música do despertador dispara às 7h05. Blind Pilot começa a tocar The History That I Heard, e ela acorda feliz ouvindo uma música que gosta.

"Oh porque a história que ouvi é que as pessoas estão entediadas". ok.

Maria sai de casa todos os dias com os cabelos desgrenhados e sem um pingo de vergonha disso. Não faz frio, mas ela usa um casaco denso porque se sente atraente e envolvida numa aura européia. Ela nunca foi à Europa.

Tem dias em que ela simplesmente esquece da roupa que usou no dia anterior, e a repete. E quando ela tem um lampejo na memória, ri sozinha no elevador do trabalho. Louca.

Ela pensa: "Ótimo, agora todos vão pensar que virei a noite na rua, o que é extremamente interessante para equilibrar minha fama de solteirona convicta".

Hoje ela acordou com um pensamento revolucionário na cabeça: pão de queijo e capuccino. Ela ignora a ideia, pega um cafezinho preto na copa da firma, pão com manteiga e a vida parece estar indo muito bem assim.

Maria é daquelas que se incomoda com barulho nas primeiras horas da manhã, resumindo sua tolerância à própria voz e as músicas da playlist favorita. E ali, naquele momento, com os fones nos ouvidos, ao som de Cath, do Death Cab For Cutie, o mundo parece um lugar tão fácil de estar.

"Nada como ser surpreendida cantando (alto) no trabalho" ela pensa. A chefe entra na sala e observa aquela maluca beleza fazendo uma performance digna de um prêmio, envolvendo a sala numa cantoria desafinada, constrangedora e feliz.

- Bom dia - diz a chefe.

- Oi? - pergunta Maria tirando um dos fones do ouvido.

- Porque você está com a mesma roupa de ontem? - questiona a chefe com um risinho acusador.

- Essa é a minha roupa favorita. Ela realmente me cai muito bem, tenho um carinho muito grande por ela. Ah, já te enviei os textos por e-mail.

O dia segue sendo tolerável igual aqueles encontros de família em datas comemorativas. Você não tem outra escolha além de encarar a festança, socializar com as tias da sua avó e esperar até a meia noite para poder ir embora beber com seus amigos, ou simplesmente ir para casa ver uma maratona de South Park na TV.

A hora do almoço é sempre um filme dramático com um fundo musical sacana. Maria come na frente do computador, ou em pé, encostada na pia da cozinha da firma. Ela ali, se vendo solitária devorando um filé de peixe grelhado pensa "que caralho estranho é comer sozinha". Comer no escritório é a melhor opção para alguém que trabalha longe de casa. Você economiza tempo e dinheiro, apesar de morrer um pouco cada vez que fala sozinha enquanto come. 

Às 14h termina o horário de almoço. Ela reúne as forças que tem contra a preguiça e caminha até a loja de livros no quarteirão do escritório. Ela tem meia hora. Ela entra na loja, a mesma de sempre, e inicia sua peregrinação pelas sinopses dos livros. Cria uma lista mental de quais compraria se tivesse o dinheiro. "Nossa, esse aqui é bom. Vou comprar mês que vem. É meio caro, né?! Bom, não se deve ter pena de pagar por um bom livro. Caralho! 14h20! Tô atrasada!" Ela sempre se perde naquele mundinho.

Segundo turno de trabalho. Agora faltam menos de 4 horas para o fim do expediente. Textos prontos antes do previsto. Ela se sente bem quando produz. Se sente útil.

O telefone toca, é a Juliana. A amiga.

- Vamos sair hoje depois do trabalho? Aniversário do Eduardinho! Te pego às 18h30! - diz a amiga, desligando logo em seguida.

- Ei Ju, não vai dar! Tenho planos para hoje (comer e dormir) - A ligação já tinha terminado.

Bom, não parece tão má ideia. Fim do expediente.

Às 19h elas chegam em um pub lotado de pessoas extravagantes. Maria pensa "Porra, estou com a mesma roupa de ontem". Eduardinho recebe as duas na mesa, onde outras 10 pessoas já estão bebendo, fumando e falando sobre política. Maria começa a beber. Depois da terceira cerveja ela pega a quarta. Daí em diante, preparem-se.

A conversa do momento é a aparência incrível da duquesa Kate Middleton após o parto. Maria pensa "bom, agora é hora de eu ir ao banheiro".

Maria está bêbada. Chega ao banheiro, se olha no espelho e diz: "Oi moça, você vem sempre aqui? Escuta, essa não é a mesma roupa de ontem? Ela fica muito bem em você. Gostosa. Nossa você é bonita heim?! Tem namorado? Ah, não, não, estou solteiríssima! HAHAHAHAHA".

Ela está fazendo caretas na frente do espelho e alguém entra no banheiro. Ops, também já havia alguém lá quando ela entrou. "Acho que essa é a hora que eu sumo daqui" ela pensa. Sai rindo por entre a multidão. Uma música muito boa começa a tocar. Ela vai para frente do palco, e começa a dançar como se o universo todo fosse aquela pista. 

Ela se basta naquele momento, e depois vai para casa disposta a não repetir a mesma roupa no dia seguinte.