A música do despertador
dispara às 7h05. Blind Pilot começa a tocar The History That I Heard, e ela acorda
feliz ouvindo uma música que gosta.
"Oh porque a história
que ouvi é que as pessoas estão entediadas". ok.
Maria sai de casa todos os
dias com os cabelos desgrenhados e sem um pingo de vergonha disso. Não faz
frio, mas ela usa um casaco denso porque se sente atraente e envolvida numa
aura européia. Ela nunca foi à Europa.
Tem dias em que ela simplesmente
esquece da roupa que usou no dia anterior, e a repete. E quando ela tem um lampejo
na memória, ri sozinha no elevador do trabalho. Louca.
Ela pensa: "Ótimo,
agora todos vão pensar que virei a noite na rua, o que é extremamente
interessante para equilibrar minha fama de solteirona convicta".
Hoje ela acordou com um
pensamento revolucionário na cabeça: pão de queijo e capuccino. Ela ignora a
ideia, pega um cafezinho preto na copa da firma, pão com manteiga e a vida
parece estar indo muito bem assim.
Maria é daquelas que se
incomoda com barulho nas primeiras horas da manhã, resumindo sua tolerância à
própria voz e as músicas da playlist favorita. E ali, naquele momento, com os
fones nos ouvidos, ao som de Cath, do Death Cab For Cutie, o mundo parece um
lugar tão fácil de estar.
"Nada como ser
surpreendida cantando (alto) no trabalho" ela pensa. A chefe entra na sala
e observa aquela maluca beleza fazendo uma performance digna de um prêmio,
envolvendo a sala numa cantoria desafinada, constrangedora e feliz.
- Bom dia - diz a chefe.
- Oi? - pergunta Maria
tirando um dos fones do ouvido.
- Porque você está com a
mesma roupa de ontem? - questiona a chefe com um risinho acusador.
- Essa é a minha roupa
favorita. Ela realmente me cai muito bem, tenho um carinho muito grande por
ela. Ah, já te enviei os textos por e-mail.
O dia segue sendo tolerável
igual aqueles encontros de família em datas comemorativas. Você não tem outra
escolha além de encarar a festança, socializar com as tias da sua avó e esperar
até a meia noite para poder ir embora beber com seus amigos, ou simplesmente ir
para casa ver uma maratona de South Park na TV.
A hora do almoço é sempre um
filme dramático com um fundo musical sacana. Maria come na frente do
computador, ou em pé, encostada na pia da cozinha da firma. Ela ali, se vendo
solitária devorando um filé de peixe grelhado pensa "que caralho estranho
é comer sozinha". Comer no escritório é a melhor opção para alguém que trabalha longe de casa. Você economiza tempo e dinheiro, apesar de morrer um
pouco cada vez que fala sozinha enquanto come.
Às 14h termina o horário de
almoço. Ela reúne as forças que tem contra a preguiça e caminha até a loja de
livros no quarteirão do escritório. Ela tem meia hora. Ela entra na loja, a
mesma de sempre, e inicia sua peregrinação pelas sinopses dos livros. Cria uma
lista mental de quais compraria se tivesse o dinheiro. "Nossa, esse aqui é
bom. Vou comprar mês que vem. É meio caro, né?! Bom, não se deve ter pena de
pagar por um bom livro. Caralho! 14h20! Tô atrasada!" Ela sempre se perde
naquele mundinho.
Segundo turno de trabalho.
Agora faltam menos de 4 horas para o fim do expediente. Textos prontos antes do
previsto. Ela se sente bem quando produz. Se sente útil.
O telefone toca, é a Juliana. A amiga.
- Vamos sair hoje depois do
trabalho? Aniversário do Eduardinho! Te pego às 18h30! - diz a amiga,
desligando logo em seguida.
- Ei Ju, não vai dar! Tenho
planos para hoje (comer e dormir) - A ligação já tinha terminado.
Bom, não parece tão má
ideia. Fim do expediente.
Às 19h elas chegam em um pub
lotado de pessoas extravagantes. Maria pensa "Porra, estou com a mesma
roupa de ontem". Eduardinho recebe as duas na mesa, onde outras 10 pessoas
já estão bebendo, fumando e falando sobre política. Maria começa a beber.
Depois da terceira cerveja ela pega a quarta. Daí em diante, preparem-se.
A conversa do momento é a aparência incrível da duquesa Kate Middleton após o parto. Maria pensa
"bom, agora é hora de eu ir ao banheiro".
Maria está bêbada. Chega ao
banheiro, se olha no espelho e diz: "Oi moça, você vem sempre aqui? Escuta, essa não é a mesma roupa de ontem? Ela fica muito bem em você. Gostosa. Nossa você é
bonita heim?! Tem namorado? Ah, não, não, estou solteiríssima!
HAHAHAHAHA".
Ela está fazendo caretas na
frente do espelho e alguém entra no banheiro. Ops, também já havia alguém lá quando ela entrou. "Acho que essa é a hora que eu sumo daqui" ela pensa. Sai
rindo por entre a multidão. Uma música muito boa começa a tocar. Ela vai para
frente do palco, e começa a dançar como se o universo todo fosse aquela pista.
Ela se basta naquele momento, e depois vai para casa disposta a não
repetir a mesma roupa no dia seguinte.
