Ela não é uma garota à
frente de seu tempo e costuma dizer que outras mulheres na história já desempenham
bem esse papel. Malu fuma, bebe, fala palavrões e se apaixona na mesma
velocidade alucinante com que entra e sai das crises de ansiedade.
Malu é engraçada, quando
não está de mau humor. Ela é o que alguns chamam de romântica incurável. Detesta
esse termo, é piegas e idiota como mudar a voz para falar com crianças e
animais. Adora animais. Adora crianças. Contanto que não tenha que lidar com
eles. Lhe falta um pouco de carisma até para com os seres humanos mais
crescidos.
Pode-se dizer que essa
jovem mulher de 27 anos tem vícios de comportamento muito estranhos e
controversos. Um certo dia decidiu procurar um psiquiatra para se certificar de
que não, não possuía nenhum tipo de distúrbio mental, qualquer tipo de psicopatia
e afins. O médico sorriu - devia ouvir muito disso o dia inteiro - fez algumas
perguntas de praxe e chegou a conclusão de que ela não era louca, apenas
ansiosa.
O diagnostico dos
amigos é de que se trata de nada mais nada menos que medos e piras. Um conjunto
de emoções inexplicáveis com as quais ela não sabe lidar, principalmente no que
diz respeito às coisas do coração.
Malu estava sempre
carregando os problemas do mundo sobre suas
costas. Pequenas e grandes, mínimas preocupações daqueles a quem amava
tornavam seus dias escuros e difíceis por causa da sensação de impotência. O
médico disse que ela vivia a vida do vizinho. A frustração de não poder resolver a vida de todos.
Os problemas com a
ansiedade foram amenizados com remedinhos que, segundo o Doutor Michel,
ajudariam a regular as emoções dela. Contudo, Malu precisava de muito mais que
pílulas para lidar com os conflitos do próprio gênio. Grande parte dos
problemas era de ordem comportamental.
Ela não entendia. Havia
tido uma infância tranquila, escalando muros, subindo em arvores, fugindo de
casa de vez em quando. A adolescência não chegou a ser um tormento. Era uma
aluna aplicada na escola, brilhava no teatro e nas apresentações do final de
ano.
Não tinha nenhum motivo
para ter aquele vazio insistente na alma. Talvez ela gostasse de se ocupar das
tristezas alheias para esquecer das próprias, tristezas que nem sequer tinham
nomes.
Houve um tempo em que
ela bebia demais para lidar com o vazio. Copo cheio, alma vazia. "Tanto
faz", ela pensava. Havia dias em que tudo que ela precisava era acender um
cigarro, fumar e calar a boca. A voz da razão, no entanto, continuava ali,
sempre presente, insistindo 'sai dessa, vagabunda'.
Aos 25 anos, Malu era
uma espécie de caçadora de memórias. Uma vez ela conheceu um homem, desses que
estão de passagem, em uma festa que tocava um tipo de música que ela não
costumava ouvir por opção. Ela dormiu com o moço e roubou um livro que estava
na cabeceira. Se arrependeu, e mandou alguém entregar o livro na casa do rapaz
no outro dia.
Malu era da vida, era
de todos. Pertencia a si e ao mundo. Talvez não pertencesse tanto a si. Um belo
dia comprou passagens de avião e foi procurar um namoradinho, com quem não
tinha nada em comum. Ele gostava de rap, academia e vodka com energético. Malu
gostava de rock, livros, vinhos e cerveja. Até hoje ela se pergunta que tipo de
droga estaria usando quando pensou que estava apaixonada por ele.
Houve também o episódio
do confeiteiro. Ele tinha tatuagens interessantes, mas cuspia quando falava.
Malu ignorava o pequeno detalhe. "Ele já viajou o mundo. Dar umas
cuspidinhas enquanto fala não é tão relevante". Por algum motivo ela
acreditava que "o que viesse estaria bom". Malu voltava para casa com
cheiro de baunilha no cabelo e nenhum amor no coração.
A nenhum desses moços
Malu amou. Essa frustração se juntou às outras. Ela se sentia apenas mais uma
solteira se convencendo de que estava bem sem ninguém. Com o tempo, de tanto
fingir, ela até chegou a acreditar.
A melhor amiga dizia,
"como você quer que algo dê certo se você só escolhe as pessoas
erradas?". Boa pergunta. Uma entre milhares de outros questionamentos para
os quais Malu não tinha nenhuma resposta decente.
Malu podia ter lido os
romances mais complexos da literatura moderna, mas não tinha nenhum senso de
direção quando o assunto era escolher um homem. Ela estava cansada de lidar com
figuras inanimadas. Homenzinhos sem pé e nem cabeça. Malu estava cansada de se
doar demais a uma pista de mão única.
Todo os dias, às 9h, o
despertador avisa que é hora do remédio. Ansiolítico, 20 mg por dia. Malu pensa
"essa porra não está fazendo efeito nenhum". Um cigarro, um livro e
um coração atordoado por ter tanto amor para oferecer e ninguém decente para
receber. Malu levantava de madrugada, andava pela casa como se perseguisse a
solução para a solidão.
Naquela sexta-feira, no
final do dia, Malu comeu um macarrão instantâneo encostada na pia da cozinha.
Depois, ela desceu as escadas do prédio e
foi ao mercadinho da esquina, onde comprou 3 garrafas de vinho tinto e duas
carteiras de cigarro. O plano era subir e beber sozinha até cair embriagada no
carpete da sala.
Tudo estava indo muito
bem. Malu se movia pela rua como se realmente acreditasse que era invisível.
Descabelada, sem maquiagem e com um pijama velho com estampa de folhas de
maconha. Ao chegar na portaria do prédio, Malu tropeçou na escadaria e todas as
garrafas de vinho se quebraram, formando uma mancha imensa no chão. "Puta
que pariu, caralho. Nem isso eu faço direito".
O vizinho do 302, jovenzinho
barbudo, que sempre desejava bom dia quando se cruzavam no corredor, para o
qual ela sempre estava mal humorada demais para dar atenção, viu Malu ali,
desgrenhada, chorosa, catando os cacos das garrafas.
"Noite ruim Malu?
Escuta, to indo no bar da horizontal, vai rolar um cover de Band Of Horses. Eu
sei que você gosta, porque sempre escuto o som vindo do seu apartamento. Se
quiser, a gente pode ir junto". Malu levantou a cabeça, olhou o vizinho e
respondeu: "Desculpa, eu não sou muito boa com encontros, ainda mais
quando estou usando essa pijama".
O vizinho insistiu.
"Te compro outras três garrafas de vinho se você for comigo, usando esse
pijama". Malu riu idiotamente. O vizinho estendeu a mão. Ela segurou,
levantou e pensou "por que não?".
Malu foi com o vizinho
ao bar da horizontal, vestida com o pijaminha com estampa de maconha. Quando
chegaram, a banda havia começado a tocar Laredo. Aquela guitarra, aquele som.
Malu acendeu um cigarro e olhou o rosto do vizinho. "Que cara legal"
ela pensou. Será que...

