segunda-feira, 27 de abril de 2015

A descabida Malu


Ela não é uma garota à frente de seu tempo e costuma dizer que outras mulheres na história já desempenham bem esse papel. Malu fuma, bebe, fala palavrões e se apaixona na mesma velocidade alucinante com que entra e sai das crises de ansiedade. 

Malu é engraçada, quando não está de mau humor. Ela é o que alguns chamam de romântica incurável. Detesta esse termo, é piegas e idiota como mudar a voz para falar com crianças e animais. Adora animais. Adora crianças. Contanto que não tenha que lidar com eles. Lhe falta um pouco de carisma até para com os seres humanos mais crescidos.

Pode-se dizer que essa jovem mulher de 27 anos tem vícios de comportamento muito estranhos e controversos. Um certo dia decidiu procurar um psiquiatra para se certificar de que não, não possuía nenhum tipo de distúrbio mental, qualquer tipo de psicopatia e afins. O médico sorriu - devia ouvir muito disso o dia inteiro - fez algumas perguntas de praxe e chegou a conclusão de que ela não era louca, apenas ansiosa.

O diagnostico dos amigos é de que se trata de nada mais nada menos que medos e piras. Um conjunto de emoções inexplicáveis com as quais ela não sabe lidar, principalmente no que diz respeito às coisas do coração.

Malu estava sempre carregando os problemas do mundo sobre suas  costas. Pequenas e grandes, mínimas preocupações daqueles a quem amava tornavam seus dias escuros e difíceis por causa da sensação de impotência. O médico disse que ela vivia a vida do vizinho. A frustração  de não poder resolver a vida de todos.

Os problemas com a ansiedade foram amenizados com remedinhos que, segundo o Doutor Michel, ajudariam a regular as emoções dela. Contudo, Malu precisava de muito mais que pílulas para lidar com os conflitos do próprio gênio. Grande parte dos problemas era de ordem comportamental.

Ela não entendia. Havia tido uma infância tranquila, escalando muros, subindo em arvores, fugindo de casa de vez em quando. A adolescência não chegou a ser um tormento. Era uma aluna aplicada na escola, brilhava no teatro e nas apresentações do final de ano.

Não tinha nenhum motivo para ter aquele vazio insistente na alma. Talvez ela gostasse de se ocupar das tristezas alheias para esquecer das próprias, tristezas que nem sequer tinham nomes.

Houve um tempo em que ela bebia demais para lidar com o vazio. Copo cheio, alma vazia. "Tanto faz", ela pensava. Havia dias em que tudo que ela precisava era acender um cigarro, fumar e calar a boca. A voz da razão, no entanto, continuava ali, sempre presente, insistindo 'sai dessa, vagabunda'.

Aos 25 anos, Malu era uma espécie de caçadora de memórias. Uma vez ela conheceu um homem, desses que estão de passagem, em uma festa que tocava um tipo de música que ela não costumava ouvir por opção. Ela dormiu com o moço e roubou um livro que estava na cabeceira. Se arrependeu, e mandou alguém entregar o livro na casa do rapaz no outro dia.

Malu era da vida, era de todos. Pertencia a si e ao mundo. Talvez não pertencesse tanto a si. Um belo dia comprou passagens de avião e foi procurar um namoradinho, com quem não tinha nada em comum. Ele gostava de rap, academia e vodka com energético. Malu gostava de rock, livros, vinhos e cerveja. Até hoje ela se pergunta que tipo de droga estaria usando quando pensou que estava apaixonada por ele.

Houve também o episódio do confeiteiro. Ele tinha tatuagens interessantes, mas cuspia quando falava. Malu ignorava o pequeno detalhe. "Ele já viajou o mundo. Dar umas cuspidinhas enquanto fala não é tão relevante". Por algum motivo ela acreditava que "o que viesse estaria bom". Malu voltava para casa com cheiro de baunilha no cabelo e nenhum amor no coração.

A nenhum desses moços Malu amou. Essa frustração se juntou às outras. Ela se sentia apenas mais uma solteira se convencendo de que estava bem sem ninguém. Com o tempo, de tanto fingir, ela até chegou a acreditar.

A melhor amiga dizia, "como você quer que algo dê certo se você só escolhe as pessoas erradas?". Boa pergunta. Uma entre milhares de outros questionamentos para os quais Malu não tinha nenhuma resposta decente.

Malu podia ter lido os romances mais complexos da literatura moderna, mas não tinha nenhum senso de direção quando o assunto era escolher um homem. Ela estava cansada de lidar com figuras inanimadas. Homenzinhos sem pé e nem cabeça. Malu estava cansada de se doar demais a uma pista de mão única.

Todo os dias, às 9h, o despertador avisa que é hora do remédio. Ansiolítico, 20 mg por dia. Malu pensa "essa porra não está fazendo efeito nenhum". Um cigarro, um livro e um coração atordoado por ter tanto amor para oferecer e ninguém decente para receber. Malu levantava de madrugada, andava pela casa como se perseguisse a solução para a solidão.

Naquela sexta-feira, no final do dia, Malu comeu um macarrão instantâneo encostada na pia da cozinha. Depois, ela  desceu as escadas do prédio e foi ao mercadinho da esquina, onde comprou 3 garrafas de vinho tinto e duas carteiras de cigarro. O plano era subir e beber sozinha até cair embriagada no carpete da sala.

Tudo estava indo muito bem. Malu se movia pela rua como se realmente acreditasse que era invisível. Descabelada, sem maquiagem e com um pijama velho com estampa de folhas de maconha. Ao chegar na portaria do prédio, Malu tropeçou na escadaria e todas as garrafas de vinho se quebraram, formando uma mancha imensa no chão. "Puta que pariu, caralho. Nem isso eu faço direito".

O vizinho do 302, jovenzinho barbudo, que sempre desejava bom dia quando se cruzavam no corredor, para o qual ela sempre estava mal humorada demais para dar atenção, viu Malu ali, desgrenhada, chorosa, catando os cacos das garrafas.

"Noite ruim Malu? Escuta, to indo no bar da horizontal, vai rolar um cover de Band Of Horses. Eu sei que você gosta, porque sempre escuto o som vindo do seu apartamento. Se quiser, a gente pode ir junto". Malu levantou a cabeça, olhou o vizinho e respondeu: "Desculpa, eu não sou muito boa com encontros, ainda mais quando estou usando essa pijama".

O vizinho insistiu. "Te compro outras três garrafas de vinho se você for comigo, usando esse pijama". Malu riu idiotamente. O vizinho estendeu a mão. Ela segurou, levantou e pensou "por que não?".

Malu foi com o vizinho ao bar da horizontal, vestida com o pijaminha com estampa de maconha. Quando chegaram, a banda havia começado a tocar Laredo. Aquela guitarra, aquele som. Malu acendeu um cigarro e olhou o rosto do vizinho. "Que cara legal" ela pensou. Será que...



segunda-feira, 13 de abril de 2015

Fisgada


Há uma linha invisível que te puxa para baixo quando você flutua. Há uma linha chamada realidade que te fisga e te tira do ar. Te prende os pés no chão. Te acorrenta.

O céu te recebe e te joga de volta. Os fios da razão. Os fios da descrença no amor. Os fios do medo.

Um dia, desses que nunca se espera, vai amanhecer sem aviso. Em um tempo de águas paradas há sempre uma visita inesperada. Um beijo surpresa da vida, que vai te despertar para a luta contra os fios que te prendem, que te impedem de acreditar, de viver o sonho, de se entregar.

São os pequenos casos impensáveis da vida subestimada. São as pequenas felicidades de ver em acontecimentos aleatórios, pontos costurados entre si que constroem a sensação mais perfeita do "isso era para ser". E será, o que tiver de ser. Será o que escolher ser.

Arranca os fios. Abre os braço, abre o peito. Entra nesse rio, deixa ele te movimentar. Flutua no ar, deixa ser o que tiver que ser.

Deixa as águas seguirem o percurso, deixa de lado as ideias antiquadas de como tudo tem que ser. Esquece o medo de desatinar.

Abre os olhos, abre os braços. Beija a vida com fervor. Um beijo infinito. Um beijo livre. Já não há mais linha que te prenda.




(Texto escrito ao som de Carvel - John Frusciante)