segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Talento



Quem é que vai dizer a verdade quando essa música acabar? Eu poderia transformar todas as minhas lágrimas em canção. Ninguém iria notar.

Ninguém negaria que o tempo passa através de mim e leva milhares de pedaços invisíveis. Eu me sinto velha, mas nunca sem esperança.

É essa vocação espetacular de ignorar o fim inevitável de todos os dias e continuar buscando a felicidade que mantém de pé.

A noite cai como sombra fina e a gente floresce ao amanhecer. Um dia a mais e um dia a menos parecem coisas tão similares.

E na madrugada, meus olhos se abrem para o que está distante o bastante para não existir e ao mesmo tempo tão forte para me tirar o sono. É o vício que a alma acalenta. O clamor eterno pelo impossível. A vontade de querer viver eternamente na memória, na alma, no corpo, nos braços. O talento de querer ser o amor de alguém.

E nessa estrada desconhecida da vida, o veneno também é o remédio. Surpresas, fadiga, flores que morrem, plantas que renascem, samambaias que lutam pela vida na minha área de serviço e meu coração, que não tem olhos, mas enxerga o que pode ser.

E a dor que nos desmonta é a mesma que junta nossos cacos. É viver um dia de cada vez, é renascer todos os dias. É querer mais e mais e não ter medo de se entregar.

É a impavidez do amor, que eu e você nascemos para ter. A gente tem o dom de se refazer.

Corpo no espaço

 
 
 
Um dia você se descobre dançando conforme a música do universo. Um dia, você se olha no espelho e se vê a vítima perfeita da contradição. Você, um grande paradoxo do universo, sempre negando seus instintos, podando seus sentimentos e desperdiçando chances. Querendo no fundo, um par de oportunidades para sentir.
Quem é a figura no espelho. A alma tem correntes?
Universos ambulantes falando sempre o contrário do que sentem, acumulando remorsos, escondendo qualquer resquício que deixe transparecer fragilidade, diante do inacreditável e piegas sonho comum de felicidade.
O mundo é um só, ele rodeia camas diferentes, mas no seu íntimo queria um leito quente e único, onde nenhum outro corpo estranho pudesse chegar.
É como um grande protagonista de uma peça que encena a frieza. E dane-se o sentimentalismo e qualquer ruído de palpitação. O que se quer é emoção, suor e corpos entrelaçados fisicamente mas desligados totalmente das coisas abstratas, não palpáveis e intocáveis feito as coisas do coração.
É só fluxo, fluído, massa, corpo, calor, ardor, leveza e nada mais. Fácil falar, e isso, o mundo tem demonstrado bem. É fácil tornar a alma cativa da boca, que fala sem parar a contradição absoluta, e fazer em abismo entre o que a boca diz e o que o coração sente.

quinta-feira, 11 de julho de 2019

O vale



As ruas da cidade conhecem o drama da minha dor, como um caminho antigo no meio da escuridão.

Ando só, com o peito aberto e os olhos cerrados.

Tento tatear no meio da escuridão procurando o lugar exato em que me pedi de mim.

Eu deixo lágrimas quentes por onde passo. Marcam o chão por onde caminho, feito uma trilha antiga no meio da escuridão que eu conheço tão bem.

É o vale, o vale invocado por todas as coisas que atraio quando não acredito em mim, quando duvido de mim, quando não me enxergo, quando me distraio, quando me acovardo.

É o vale solitário que tento atravessar a cada derrota dos dias, pequenas e grandes. É o vale em que me coloco a caminhar desesperadamente procurando o lugar exato em que me deixei cair.

É o meu vale. Eu sou o vale. Eu me perco, eu me busco. Eu me culpo, eu me perdoo, eu me castigo, eu me absolvo.

Sou eu quem me ameaça e sou eu quem me protege. Sou eu quem me rasga em pedaços, sou eu quem me estilhaça. Sou eu quem junta os cacos e reconstrói minha face.

Eu, somente, sei onde pulsa a dor. Eu sei bem onde se esconde o punhal.

Eu é quem combate o eu que me parte ao meio. Me recomponho, me acredito, me salvo, me reconheço e me acendo a luz. 



segunda-feira, 1 de julho de 2019

O fim do mundo para iniciantes

Parte 1 - a Deusa 

Ela não estava voltando de uma guerra, não literalmente. Mas era essa a sensação de descangalhamento que ela carregava. Tão jovem, tão acostumada a perder. Há vezes em que a vida prega peças mesmo nas pessoas mais experientes. 

Quando completou 30 anos, parecia que a vida ia engrenar em planos mais concretos. De fato, já fazia um tempo que Natasha não sonhava sobre as coisas que podia ser e alcançar na vida. Ela estava ali, submersa numa rotina confortável que envolvia trabalho-casa-trabalho e nada mais do que pagar as contas e se isolar do mundo nos finais de semana para ver filmes antigos e comer comida requentada. 

Natasha é uma dessas mulheres impressionantes que agem como se não soubessem disso. Com 5 livros na cabeceira, alguns completando aniversário de 6 meses na mesma página marcada, ela não usa sutiã e se acostumou a usar o cabelo sempre preso em uma especie de meio rabo de cavalo torto e despenteado. Era assim que ela gostava de se ver, alguém que sabe exatamente como se sentir bonita. 

Parece confiante, mas investe na cabeça para compensar a falta de um 'corpo esbelto'. Embora se questionasse "que porra seria um corpo esbelto? Essa palavra é brega. Tão brega quanto os padrões de beleza". Falsa convicção. A essa altura da história já é possível entender que a autoestima dessa criatura fascinante não era das melhores.

A forma como Natasha se enxergava era completamente diferente da forma como os amigos e familiares a viam. Para a irmã mais nova, ela era modelo de personalidade. Para os pais, era atrevidamente independente. Para os amigos, ela era um lugar seguro em um dia dificil. Para desconhecidos, era uma mulher de beleza exótica e mau encarada. 

Natasha se via sempre menor do que era em termos de importância e não acreditava que ninguém poderia ver nela algo sensacional. Apesar de pisar firme na estrada dos dias e cumprir as obrigações cotidianas com afinco, havia uma parte nela negligenciada pela falta do amor próprio, que se refletia principalmente na facilidade de aceitar menos do que merecia, menos do que precisava em relacionamentos amorosos. 

Ela só precisava que alguém, qualquer alguém, reconhecesse a verdade absoluta que ela mesma não tinha coragem de assumir: o quanto era especial. Não os pais, não os amigos, mas um parceiro romântico para lhe escrever na rua declarações de amor, para exalta-la como uma deusa da antiguidade no corpo terreno de uma mulher. 

Como se comporta uma deusa? Senta-se em seu trono majestoso enquanto recebe aos seus pés as oferendas de seus adoradores? Olha ao menos para baixo? Seus pés ao menos tocam o chão? 

Parte 2 - Falsos adoradores


Uma lista de fracassos românticos. Todos queriam entrar, mas nenhum queria ficar. Por muito tempo a busca pela sensação efêmera da devoção masculina levou Natasha a encontros muito casuais com muitos homens. Não amava nenhum deles, eles também não a amavam. Ela queria deles a atenção absoluta e a dedicação de quem quer muito habitar um corpo e faz e diz todas as coisas para enaltecer e garantir o prazer. Depois, cada um segue seu caminho. Conveniência. A deusa nasce e morre na boca de um homem. 

Adaptação? Natasha se viciou na devoção efêmera de seus amantes passageiros. A ponto de não mais pensar em ter um relacionamento sério com alguém. Ela queria sempre mais daquele afeto passageiro, da oferenda perfumada das palavras de veneração. Ela precisava daquilo para se afirmar. Para se convencer. Para se enganar. 


Parte 3 - O fiel


Era um dia comum. No caminho de casa para o trabalho Natasha ouviu The National e leu uma notícia qualquer no jornal. Enquanto andava distraída pelo metrô, esbarrou em um cara qualquer. "Desculpa, foi mal" disse sem fitar os olhos no homem.

- Moça! - gritou o rapaz. 

Natasha olhou para atrás tirando um dos fones do ouvindo. Ela havia deixado cair o cartão do metrô. 

- Nossa, obrigada! 

- Natasha Porto? 
- É - respondeu ela com uma olhar de estranhamento.

- Você conhece Helena, Helena Porto? 
- Helena Porto é o nome da minha irmã mais nova - respondeu.
- Pode crer, eu estudei com ela no último ano antes de entrar para a universidade. 
- Pode crer - respondeu Natasha um tanto quanto incomodada com a abordagem.
- Bom, então, eu perdi o contato dela. Você pode anotar meu número e dizer que eu mandei lembranças? 
 - Claro! Anota ai - disse ela estendendo o braço. 

O cara foi embora sorridente. Natasha recolocou os fones no ouvido e resmungou algo sobre estar atrasada. 
 No final do dia, Nat telefonou para a irmã e contou do encontro com o cara e se deu conta de que não tinha sequer perguntado o nome dele. 

- Nossa, em fim. Manda mensagem e pergunta o nome dele. Ele vai saber que é você. 

O nome do cara era Diego e ele tinha observado Natasha no metrô o tempo todo analisando a semelhança dela com a irmã e na duvida se era ou não a ex colega de classe. 

FODA-SE ESSA HISTÓRIA DE MERDA ESSE CARA VAI CHEGAR NO MOMENTO EM QUE A NATASHA ESTÁ MAIS CARENTE (APESAR DE ELA NÃO ASSUMIR) E VAI DIZER PARA ELA COISAS QUE NENHUM DOS OUTROS HOMENS QUE PASSARAM RAPIDAMENTE (UMA NOITE E NADA MAIS) PELA VIDA DELA E VAI FAZER ELA SE SENTIR ESPECIAL, ELE VAI DIZER QUE ELA É LINDA, QUE ELE SÓ PENSA NELA, DUAS SEMANAS DEPOIS VAI PEDIR ELA EM NAMORO, EM DUAS SEMANAS VAI DIZER QUE AMA ELA, EM 4 SEMANAS VAI DIZER QUE ELA É O AMOR DA VIDA DELE. 

Natasha teve um sonho ruim. Desses que impregnam a cabeça por dias. Ela sonhou que ela se apaixonava por esse cara do metrô e vivia um romance com ele. Ela abria o coração dela para esse cara que surgiu do nada na vida dela e ele diria coisas maravilhosas sobre ama-la, sobre viver um vida com ele. Ele falava sobre amor, mas o pesadelo começou quando ela percebeu que ele não agia como alguém que amava. Ele era relapso com o relacionamento, sendo sempre a parte mais cobrada por não ser presente o suficiente. E a tragédia seria uma discussão a cada dia, enquanto Natasha se perguntava se esse cara realmente a amava, vivendo uma angustia infinita dia a após dia, regada por uma insegurança profunda de não estar recebendo de fato o melhor que aquele cara poderia dar a ela.

O pesadelo acaba quando Natasha decide terminar mais uma vez depois de muitas tentativas, e dessa vez o cara não aceitava mais ser dispensado por vezes seguidas e aceita terminar e não a quer mais, nunca mais.
Natasha acordou do pesadelo e pulou de um prédio. Mas era um pesadelo dentro de um pesadelo e Natasha se perguntou "que ser humano teria assim tanta influencia sobre a vida de uma mulher a ponto de faze-la pular de um prédio por não aguentar a dor do rompimento amoroso?".

Nesse momento Natasha percebeu algo que sempre esteve ali dentro do seu peito, feito um espaço vazio e inabitado: falta de amor próprio.

Foi como descobrir o diagnóstico para uma doença perigosa e fatal. Natasha não se amava o bastante para não aceitar pouco de todos os homens que a tiveram. "Se você está disposto a se jogar de um prédio por causa de alguém, então você não se ama", pensou.

Mas era um sonho. "Vou me culpar?" disse ela aos gritos.


Naquela noite o fim do mundo começou e Natasha não fazia ideia do que fazer para se salvar.

Parte 4 - O fim do mundo

Natasha saiu de casa tão transtornada depois desse pesadelo, que nem percebeu que a rua estava vazia. Não havia pessoas andando apressadas, não havia carros buzinando. Ela apertava o casaco com as mãos junto ao peito. Estava frio e ventava muito. Desceu as escadas do metrô apressada olhando no relógio, que estava parado. "Mas que porra é essa?".

O telefone não tinha sinal. O metrô estava deserto. Ela ficou confusa pensando que talvez tivesse saído de casa muito cedo em um sábado. Um jornal voava pelo saguão do metrô. Ela agarrou a folha com a mão e leu a data: 01 de junho de 2019. "Certo, tenho certeza de que ontem foi dia 30, então hoje não é sábado, hoje é terça".

Ela demorou alguns minutos para entender que estava completamente sozinha e que o metrô não chegaria.

"Ok", disse ela pegando a saída para a rua.

Ao sair do metrô ela percebeu como o céu estava turvo anunciando uma tempestade daquelas. "Puta merda, esqueci meu guarda chuva. Onde tá todo mundo?". A chuva começou a cair e Natasha procurou abrigo numa cafeteria na avenida principal. Ao entrar, percebeu as xícaras, pães, bolos, bolsas, celulares e uma chaleira que não parava de apitar. "Ok, isso está ficando sinistro".

"Oi!! Tem alguém ai?????" ela gritava. Ninguém respondeu.

Sob a chuva torrencial, Natasha saiu correndo pela avenida deserta gritando na esperança de que alguém respondesse. Não havia ninguém. Lojas abandonadas, carros parados sem ninguém na direção, carrinhos de bebê vazios, objetos pessoais de milhares de estranhos espalhados pelo chão. O cenário era de uma recente abdução. Mas, por quê ela havia ficado?

Se os ensinamentos cristãos da família de Natasha estivessem corretos, esse acontecimento se chamava apocalipse e Natasha seria uma das que não subiram a céu. "Não pode ser o apocalipse, eram para existir mais pessoas além de mim. Eu não sou a única pecadora no mundo", argumentou para si mesma.

Natasha decidiu ir até a casa dos pais. Em meio a chuva ela olhava para os lados como se temesse ser atacada por alguma criatura sinistra. Ela não fazia ideia do que estava acontecendo, mas o cenário dava abertura para muitas interpretações que davam calafrios.

No prédio dos pais, as portas estavam abertas. "Pai! Mãe! Helena!! Cadê vocês?? Onde está todo mundo????", gritava já a beira das lágrimas.

Natasha ouviu o som de algo se movendo nas escadas e ficou amedrontada, agarrou a coisa mais pesada que viu pela frente e já se preparava para uma luta quando um pastor alemão com o pelo brilhante e macio atravessou a porta e latiu.

"Ohh menino, quer dizer que somos só eu e você?".

Atordoada, Natasha ligou o rádio, a TV mas não havia nada na programação, como se a transmissão tivesse sido interrompida.

Tentando se manter calma e não ceder ao choro, Natasha deixou o prédio da família e seguiu pela rua até a casa do amiga mais próxima na companhia do cachorro.

Ao chegar ao apartamento de Brenda, percebeu que as portas também estavam escancaradas. Subiu as escadas até o 4º andar e se deu conta de que Brenda também tinha desaparecido. Nenhum bilhete, nenhum aviso. Casas inteiras desabitadas, abertas, coisas jogadas pelo chão. Decidiu ficar e esperar.

Trocou a roupa molhada e vestiu algo confortável. Fez um café e sentou na sala do apartamento da amiga e chorou enquanto o cachorro lhe encarava. "Qual seu nome?", perguntou ela ao cão. "Vou te chamar de Scott", o cão latiu. Ela entendeu como uma afirmação.

Pegou no sono e acordou horas depois com um barulho muito forte vindo da rua. Amedrontada, se trancou no quarto enquanto ouvia o som se aproximando cada vez mais. Natasha tremia enquanto Scott latia sem parar. Escondida dentro do armário, tapava os ouvidos com as mãos para tentar suporta o som grave que atravessava as paredes. Enquanto mais medo tinha, mais alto ficava o som.

Ela chorava sem saber o que estava acontecendo, quando de repente o som cessou abruptamente. E ela pode escutar a voz de uma mulher chamando do lado de fora. "Pode sair! A coisa já foi. Estamos seguras agora", disse a mulher.

Natasha enxugou as lágrimas e pensou "nunca estive tão perto de me cagar de medo em toda minha vida". Abriu a porta do quarto e se deparou com uma mulher exatamente igual a ela. Natasha ficou pasma com a visão, balançou a cabeça na tentativa de de acordar de um sonho ou desfazer uma visão. Mas quando abria os olhos, a mulher continuava lá a fitando com olhos calorosos e seguros.

"O que tá acontecendo? Quem é você?" - disse com a voz tremendo.

"Me chamo Natasha, e você?" - respondeu a mulher como se não percebesse que estava diante de alguém idêntico a ela.

"Não, isso só pode ser uma brincadeira de mau gosto! O que está acontecendo com o mundo? Onde estão todos? cadê minha família??" - respondeu aos gritos.

"Shiiiiiiu, vai atrair as 'coisas'" - respondeu a mulher com uma voz calma.

"Que coisas?"

"As coisas que atraímos quando estamos dominados pelo medo", respondeu a outra Natasha.

"Você sabe o que aconteceu? Você consegue me ver? Como você não está assustada? Será que meus pais tiveram filhas gêmeas separadas na maternidade?", indagou Natasha.

"Você é engraçada, faz tantas perguntas bobas. Que bom que encontrei você, achei que ficaria sozinha aqui para sempre", disse.


Parte cinco - A outra Natasha


Nenhuma explicação lógica para a origem da outra Natasha. Ela era completamente igual fisicamente, mas demonstrava ter uma personalidade diferente. Além do fato de que aparentava  existir desde sempre naquele lugar e espaço.

Natasha fitava a cópia aterrorizada e curiosa.

- Você sabe o que aconteceu? Por que estamos aqui sozinhas?

A outra Natasha ergueu lentamente os olhos para encarar a nova amiga.

- Temo que talvez você não consiga entender agora, mas é muito importante que você confie em mim.

- Como assim? Me explica!
- Não estamos tão sozinha assim - disse a cópia em tom de mistério - Vamos precisar uma da outra para encaramos as noites que virão e lutar contra as coisas que atraímos quando duvidamos de nós mesmas.

Natacha olhou para a sósia com uma expressão de desespero - O que atraímos?

- Tudo - respondeu a outra levantando do sofá - O que precisamos agora é de uma boa noite de sono. Amanhã temos muito a fazer, precisamos encontrar outras pessoas que podem estar perigo - Ao dizer isso, entrou no quarto e fechou a porta - Boa noite, irmã.

Parte seis - As outras 


Natasha mal tinha pregado os olhos na noite passada. Acordou com o barulho de panelas e tilintar de louça sendo colocada à mesa.

- Bom dia, irmã. Venha comer, não é porque estamos no fim do mundo que não precisamos de um bom café da manhã.

- Meu café é sem açúcar.
- Eu sei.

As duas saíram do prédio por volta do que se acreditava ser 8 da manhã. Os relógios estavam parados. "Para onde estamos indo?", indagou Natasha. "A lugar algum", respondeu a outra.

De fato a outra Natasha tinha planejado sair cedo para vagar pelas ruas das redondezas em busca de alguém perdido. Não existia um roteiro pré determinado. Ela iria aonde a intuição a levasse.

As duas idênticas e um cachorro vagando sozinhas  pela cidade deserta. A outra Natasha ia na frente, como se liderasse um exercito, como se fosse a protetora disposta a morrer e encarar qualquer perigo para livrar seus aliados do mal. Seus passos eram firmes, seu corpo volumoso se movia como uma máquina perfeita e delineada para causar fascínio. Os cabelos eram amarrados com o exato meio rabo de cavalo desgrenhado que Natasha gostava de usar. Quando ela falava, a voz imponente e ao mesmo tempo calma ecoava pela cidade. Natasha seguia a cópia admirando cada movimento daquela mulher desconhecida e ao mesmo tempo tão íntima.

Algumas quadras depois caminhando em silêncio, Scott começa a latir sem parar. "Ele sentiu alguma coisa!" - disse a cópia com um olhar atento.

Scott saiu correndo e entrou em um prédio muito alto. As duas seguiram o cão de mãos dadas. "Não vou te largar, não se preocupe", disse a cópia.

O cão foi subindo rapidamente as escadas latindo freneticamente. Quando chegaram ao 5º andar, já quase sem fôlego, as duas Natashas pararam para recuperar as forças enquanto Scott fitava a porta de um dos apartamentos. "O que pode estar aí dentro?", disse Natasha. "Não sei, vamos ver".

A porta estava destrancada. Havia um gemido vindo de um dos quartos. Era alguém pedindo socorro bem baixinho. Era uma voz de mulher, uma mulher assustada.

"Olá! Estamos entrando, pode ser? Estamos aqui para ajudar", disse a chefe da equipe, a outra Natasha.

"A coisa levou minha amiga!" - disse a mulher desesperada.

"Ok, mantenha a calma, vai ficar tudo bem!" - disse a cópia.

A mulher estava encolhida do lado da cama com uma expressão de pavor. "Eu olhei nos olhos da coisa e ela se parecia comigo", disse chorando.

Ao ouvir o relato da mulher, Natasha ficou assustada. "Como assim se parecia com você? O que é a coisa?".

"Tudo bem meninas, vai ficar tudo bem" disse a outra Natasha tentando apaziguar a situação.

"Por que você não me conta o que está acontecendo?", retrucou.

"Não acho que seja o momento, quando você estiver forte o bastante você vai ver", disse a cópia.

Natasha não se deu por satisfeita e embora não tenha mais feito perguntas, em sua mente as palavras se embaralhavam e as emoções começavam a se aquecer como uma fogueira a céu aberto.

A três mulheres vagaram juntas até perto do sol se pôr. Não encontraram mais ninguém e resolveram voltar ao apartamento de Brenda, melhor amiga de Natasha.



















quinta-feira, 25 de abril de 2019

Marco Zero



 (Escrito ao som de Keep Lying - Donna Missal)



Um dia eu li num livro querido algo sobre a desmarginação das coisas, quando as coisas perdem o significado que sempre tiveram bem diante dos nossos olhos, quando a gente enxerga algo que sempre esteve ali com uma perspectiva aterrorizante de uma natureza oculta que os olhares de rotina nunca conseguiram ver.

Essa é a história de como eu percebi que minha casa não é meu lar e que eu posso pertencer a uma infinidade de outras possibilidades, além dessa que me afugenta na zona de conforto e protegida do medo de falhar nas tentativas de arriscar em algo novo. 

Eu sempre tive medo de dar passos no escuro. O conforto da minha rotina, envolta numa nuance de segurança e garantia, me manteve sempre cativa. Eu tinha medo de arriscar, de recomeçar do zero em outro lugar, de buscar ser feliz pertencendo a mim e ao mundo como eu gostaria. 

Encontrar a zona de conforto ideal não é difícil. Muitas vezes eu me senti egoísta e ingrata com a vida por estar insatisfeita com minha vida. A verdade é que eu tenho sido assombrada por muito tempo pelo fantasma do não reconhecimento da minha capacidade, criatividade e inteligência pelo mundo ao meu redor. Eu me apeguei ao que tinha e construí minha ilusão "aqui é bom, eu não posso reclamar, pelo menos eu tenho isso".

Quanto tempo desperdiçado sendo menos do que eu poderia ser...

É dolorosa, pesada, rasga, corta e me machuca a sensação de nunca ter alcançado o lugar que eu queria no mundo. Enquanto sangro, eu me abandono e sigo cega e muda o roteiro das circunstâncias da minha vida. Afinal, é melhor ter um punhado de certeza do que não ter nada. E foi assim que por anos eu desisti de sonhar, fazer planos, seguir minhas contemplações e brilhar no mundo do meu jeito por medo de arriscar. 

Pode ser que eu esteja no mundo errado, no roteiro errado, no tempo errado. Pode ser que eu esteja apenas confortavelmente cega, surda, muda dentro do meu próprio mundo, mundo esse que eu imaginei ser tudo o que eu poderia ter.

Acontece que em um dia qualquer, desses que não se espera, uma panela de bronze pode estourar sem motivo aparente. Um dia qualquer o jeito que você enxerga a sua realidade pode se desmarginar e o que você verá por baixo da superfície de significado das coisas é que a vida pode ser diferente em muitas formas. Você pode ver que o mundo é muito maior do que se imaginava e ele pode ser todo seu.

Me silenciar e me resignar seriam escolhas muito mais fáceis. Mas eu não quero mais. Eu quero mais. Meu lar é outro lugar, onde me reconheço feliz, onde vou renascer ao recomeçar, onde o antigo medo de tentar me dará forças para me refazer como personagem da minha história. 

Não há mais tempo a perder na redoma silenciosa da vida incerta disfarçada de lar.
Eu não tenho mais medo de recomeçar e de pertencer a outro lugar.     

quarta-feira, 6 de março de 2019

Furação



(Escrito ao som de Jupiter 4 - Sharon Van Etten)


"Amor próprio", já ouvi muito falar. É uma ideia mágica que parece carregar o segredo para todos os mistérios do mundo. Não é fácil, já tentei. 

Pela lógica, a minha lógica, alguém que precise exercer o amor próprio está com os dois pés enfiados em uma longa, profunda e pesada confusão consigo. 

Nem todo mundo está de acordo com suas versões históricas. Me pergunto o que eu diria as minhas Jéssicas antigas... Talvez eu dissesse que a vida dói menos em alguns aspectos ao passar dos anos. Diria, quem sabe, que um dia ela devesse confiar mais no instinto e seguir seus sonhos. Se eu me ouviria, eu não sei. 

E no final de um longo pesadelo você se olha no espelho e vê que sua maior assombração é você. Não demora muito para acontecer. Quando acontece, você contempla a sua história assombrada com a sua capacidade de se por para baixo e sabotar sua vida, porque ninguém melhor que você sabe exatamente os seus mais específicos defeitos no emaranhado do ser.

O curioso da auto-sabotagem é justamente a motivação. Desconhecida, misteriosa, indomável e bruta vontade de se colocar no fogo e queimar. A psicanálise pode explicar esse comportamento terrível. Eu é que nunca tive coragem de encarar a verdade. 

Enquanto isso, meu eu mais recente vai revirando o universo feito um furacão que devasta tudo ao redor e não deixa nada e nem ninguém por perto. Me castigando feito uma megera que me lembra dia após dia que eu não mereço, por menor que seja, uma única demonstração de afeto, porque de alguma forma eu preciso pagar pelos pecados que eu desconheço. 

Crescer dói, viver suaviza a dor, não se amar é um veneno que corrói a alma por anos silenciosamente. 

Viver em busca de ofensas e desprezo que ao invés de machucar te aliviam com a sensação de finalmente estar recebendo o que merece. 

E você vasculha suas lembranças para ver em que ponto da história o ódio por si próprio se tornou tão protagonista da narrativa. 

Veja você no espelho, seu grande vilão. Seu mordaz carrasco. E você algemado a sua própria imagem, clamando silenciosamente pelo castigo, repelindo o afeto, desprezando o amor. 

Há quem olhe para si e consiga enxergar suas fraquezas, conviver com elas ou superá-las. Há também quem cegamente cai nas armadilhas da autodestruição, no sentimento profundo de autocomiseração. 

O que eu fiz de errado para não gostar de mim? Será que existe perdão? Será que na próxima esquina, na curva mais imprecisa há uma saída? 

Quem o meu Eu carrasco quer punir entre os meus Eus da história da minha vida? Que Eu meu errou? Que Eu meu me magoou? Que Eu meu acreditou que eu não mereço amor?

Se manifeste. Deixa eu ver teu rosto. Deixa eu te perdoar.