Em uma quinta-feira qualquer de outubro, a noite parecia seguir o curso normal da monotonia, se não fosse pelas companhias fora do comum.
Foi uma noite daquelas, das
quais nada se espera além de um porre e uma fração a menos de vergonha na cara.
Ela se vestiu como gosta, com um vestidinho preto rodado de rendas, um blusão
jeans para mascarar os bracinhos rechonchudos. All Star brancos nos pés e a
confiança de ser quem é que ela levou para dançar. Naquela noite, uma noitinha
qualquer.
É um clichê dizer que quando
menos se espera que algo aconteça ele acontece, mas foi assim, não apenas em um,
mas em diversos episódios da vida dela. Naquela noite ela não reclamou a
música, não resmungou dos frequentadores. Não era sua atmosfera favorita. Não
tocava Bob Dylan, ninguém cantava Band Of Horses.
Naquela noite, na noitinha,
todos os homens da cidade pareciam ter concordado de ir ao mesmo bar. Ela
circulava pelo salão, livre de timidez, livre de bloqueios. Se espremia entre a
multidão por uma cerveja, mais uma. E ela viu entrar, talvez o personagem mais
atípico da temporada. Ela percebeu, o cara era forasteiro, e a aparência exótica
ganhou sua atenção, e a de todas as outras mulheres num raio de 10 metros.
Um dia no passado, ela
ganhou uma aposta para falar com um rapaz, por uma merreca. Naquela noite ela
não precisava provar nada a ninguém. Ela disse “Hi!” ele respondeu. Se
conectaram, se beijaram e ficaram juntos. Quando coisas improváveis acontecem o
mundo parece ganhar um ponto a mais na tabela do sentido.
O mundo não é perfeito, não
se pode negar. Ela foi convidada gentilmente a não ficar até amanhecer. Quarto
de hospedes. Tudo bem, ela entendeu, mas com aquele gênio ela precisava de algo
mais para fazer a momento ter valido a pena. Algo que a revelasse como alguém
não descartável, e que ao mesmo tempo lhe desse tempo extra para fazer, quem
sabe, tudo de novo.
Foi um ato autentico.
Imprudente, talvez. Um gesto amador. Surrupiou uma edição The Catcher in the
Rye e guardou até o dia seguinte. O que
restou foi um suvenir impróprio e um dilema sobre devolver ou não devolver. Se
entregou. I’m sorry about your book. Quem se expõe desse jeito?
O livro voltou ao lugar que
pertencia, mas não pelas mãos da boba honesta. O motivo real do afano ninguém
nunca vai saber. Escreveu um bilhete, “Sorry”. Desculpas aceitas. Ela ganhou
uma história para contar sobre uma noite que não significou nada e significou
tudo. Fim.
