(Escrito ao som de Jupiter 4 - Sharon Van Etten)
"Amor próprio", já ouvi muito falar. É uma ideia mágica que parece carregar o segredo para todos os mistérios do mundo. Não é fácil, já tentei.
Pela lógica, a minha lógica, alguém que precise exercer o amor próprio está com os dois pés enfiados em uma longa, profunda e pesada confusão consigo.
Nem todo mundo está de acordo com suas versões históricas. Me pergunto o que eu diria as minhas Jéssicas antigas... Talvez eu dissesse que a vida dói menos em alguns aspectos ao passar dos anos. Diria, quem sabe, que um dia ela devesse confiar mais no instinto e seguir seus sonhos. Se eu me ouviria, eu não sei.
E no final de um longo pesadelo você se olha no espelho e vê que sua maior assombração é você. Não demora muito para acontecer. Quando acontece, você contempla a sua história assombrada com a sua capacidade de se por para baixo e sabotar sua vida, porque ninguém melhor que você sabe exatamente os seus mais específicos defeitos no emaranhado do ser.
O curioso da auto-sabotagem é justamente a motivação. Desconhecida, misteriosa, indomável e bruta vontade de se colocar no fogo e queimar. A psicanálise pode explicar esse comportamento terrível. Eu é que nunca tive coragem de encarar a verdade.
Enquanto isso, meu eu mais recente vai revirando o universo feito um furacão que devasta tudo ao redor e não deixa nada e nem ninguém por perto. Me castigando feito uma megera que me lembra dia após dia que eu não mereço, por menor que seja, uma única demonstração de afeto, porque de alguma forma eu preciso pagar pelos pecados que eu desconheço.
Crescer dói, viver suaviza a dor, não se amar é um veneno que corrói a alma por anos silenciosamente.
Viver em busca de ofensas e desprezo que ao invés de machucar te aliviam com a sensação de finalmente estar recebendo o que merece.
E você vasculha suas lembranças para ver em que ponto da história o ódio por si próprio se tornou tão protagonista da narrativa.
Veja você no espelho, seu grande vilão. Seu mordaz carrasco. E você algemado a sua própria imagem, clamando silenciosamente pelo castigo, repelindo o afeto, desprezando o amor.
Há quem olhe para si e consiga enxergar suas fraquezas, conviver com elas ou superá-las. Há também quem cegamente cai nas armadilhas da autodestruição, no sentimento profundo de autocomiseração.
O que eu fiz de errado para não gostar de mim? Será que existe perdão? Será que na próxima esquina, na curva mais imprecisa há uma saída?
Quem o meu Eu carrasco quer punir entre os meus Eus da história da minha vida? Que Eu meu errou? Que Eu meu me magoou? Que Eu meu acreditou que eu não mereço amor?
Se manifeste. Deixa eu ver teu rosto. Deixa eu te perdoar.
