(Escrito ao som de Keep Lying - Donna Missal)
Um dia eu li num livro
querido algo sobre a desmarginação das coisas, quando as coisas perdem o
significado que sempre tiveram bem diante dos nossos olhos, quando a gente enxerga
algo que sempre esteve ali com uma perspectiva aterrorizante de uma natureza
oculta que os olhares de rotina nunca conseguiram ver.
Essa é a história de como eu
percebi que minha casa não é meu lar e que eu posso pertencer a uma infinidade
de outras possibilidades, além dessa que me afugenta na zona de conforto e
protegida do medo de falhar nas tentativas de arriscar em algo novo.
Eu sempre tive medo de dar
passos no escuro. O conforto da minha rotina, envolta numa nuance de segurança
e garantia, me manteve sempre cativa. Eu tinha medo de arriscar, de recomeçar
do zero em outro lugar, de buscar ser feliz pertencendo a mim e ao mundo como
eu gostaria.
Encontrar a zona de conforto
ideal não é difícil. Muitas vezes eu me senti egoísta e ingrata com a vida por
estar insatisfeita com minha vida. A verdade é que eu tenho sido assombrada por
muito tempo pelo fantasma do não reconhecimento da minha
capacidade, criatividade e inteligência pelo mundo ao meu redor. Eu me apeguei ao que tinha e construí minha ilusão "aqui é bom, eu não posso reclamar, pelo menos eu tenho isso".
Quanto tempo desperdiçado sendo menos do que eu poderia ser...
Quanto tempo desperdiçado sendo menos do que eu poderia ser...
É dolorosa, pesada, rasga,
corta e me machuca a sensação de nunca ter alcançado o lugar que eu queria no mundo. Enquanto sangro, eu me abandono e sigo cega e muda o roteiro
das circunstâncias da minha vida. Afinal, é melhor ter um punhado de certeza do
que não ter nada. E foi assim que por anos eu desisti de sonhar, fazer planos,
seguir minhas contemplações e brilhar no mundo do meu jeito por medo de
arriscar.
Pode ser que eu esteja no mundo errado, no roteiro errado, no tempo errado. Pode ser que eu esteja apenas confortavelmente cega, surda, muda dentro do meu próprio mundo, mundo esse que eu imaginei ser tudo o que eu poderia ter.
Pode ser que eu esteja no mundo errado, no roteiro errado, no tempo errado. Pode ser que eu esteja apenas confortavelmente cega, surda, muda dentro do meu próprio mundo, mundo esse que eu imaginei ser tudo o que eu poderia ter.
Acontece que em um dia
qualquer, desses que não se espera, uma panela de bronze pode estourar sem
motivo aparente. Um dia qualquer o jeito que você enxerga a sua realidade pode se desmarginar e o que você verá por baixo da superfície de
significado das coisas é que a vida pode ser diferente em muitas formas. Você pode ver que o mundo é muito maior do que se imaginava e ele pode ser todo seu.
Me silenciar e me resignar
seriam escolhas muito mais fáceis. Mas eu não quero mais. Eu quero mais. Meu
lar é outro lugar, onde me reconheço feliz, onde vou renascer ao recomeçar,
onde o antigo medo de tentar me dará forças para me refazer como personagem da
minha história.
Não há mais tempo a perder na
redoma silenciosa da vida incerta disfarçada de lar.
Eu não tenho mais medo de
recomeçar e de pertencer a outro lugar.

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