A vida é essa torneira aberta que jorra, inunda e envolve o tempo num circulo
vicioso de desperdícios.
Essa ideia dos
desperdícios tem dominado meus pensamentos nos últimos tempos. "Eu deveria
ter sido eu há muito mais tempo". É um calvário que eu atravesso todo
santo dia enquanto o tempo morre e eu me aproximo cada vez mais do momento em
que vou sentir ter falhado como ser humano.
Esses e outros
pensamentos incrédulos e negativos vivem na cabeça como os morcegos no sótão do
edifício Beira Rio. Eles moram ali, me incomodam e eu não posso simplesmente
ignorá-los. Porque apesar de desagradáveis, eles são reais. São o reflexo de um
erro de percurso que ninguém consertou. De um buraco no telhado que ninguém
tapou.
Chego aos 27 anos
dançando sem pressa com meus próprios demônios, experimentando o que é
realmente tomar o controle da própria vida. Sobrevivendo à minha solidão, a
solidão que eu me impus.
Pensar no passado e nos
primeiros anos da vida adulta na casa dos 20 traz um gosto difícil de definir.
Que bom que cheguei até aqui. Que bom que superei a indolência dos meus 13, 14,
15 anos de idade. Eu não imaginava jamais que iria chegar tão longe. Mas ainda
não é o bastante. Ainda não há nada relevante realizado. Esse é o mostro que
cresce com os anos.
É um "tão perto mas
tão longe" que eu tenho carregado comigo. E eu olho para minhas mãos e pés
e não vejo correntes. Não há amarras. Eu apenas esqueci de sair do lugar em
alguma parte do caminho.
Meu pai disse "Deus
abençoe e te ajude a realizar teus planos". Eu chorei. Chorei porque
percebi que eu não tenho plano nenhum.
Vinte e sete anos e uma
sacudida. Não é um dia qualquer. É tão silenciosamente importante. Eu vibro
calada a nova fase.
Esse dia chegou para me
dizer que não importa o tempo que leva, a vida não nos deixa desavisados. Eu
vou seguir em frente, continuar e continuar.
E como diria Florence
And The Machine "como as estrelas perseguem o sol pela colina brilhante,
eu irei conquistar. De repente, eu supero. Dissolvendo como o sol se
pondo".
É sempre hora de
recomeçar.

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