Escrito ao som de Everytime – Family Of The Year
Desculpa. Talvez eu tenha
confundido o que é crescer. Eu achei, em algum momento, que isso seria uma espécie
de “não cometer mais os mesmos erros de antes” ou um quase perto de “saber lidar
com perdas e ganhos”.
Ao contrário de todo o
turbilhão de definições sobre ser um adulto que borbulha em minha mente fazendo
barulho e confusão, crescer parece mais com um “continuar errando, melhor que
antes”. Lidar com isso. Como é pesado. Como é leve. Como é insuportável.
Eu pensei “que peso morto essa coleção de falhas e erros”. Eu penso muito assim. Crescer
também é saber reconhecer as vulnerabilidades, o que te tira de órbita.
Também tem essa culpa
impiedosa dentro da alma “o que é que eu estou fazendo além de existir?”. São questões. Uma forma estranha de se punir. Enquanto isso, eu luto contra os demônios que querem
esculpir quem eu não sou, quem eu não nasci pra ser e nunca serei.
A gente vai vivendo dia a
dia num silêncio, uma série de pequenas tristezas que vão se amontoando sem se
deixar notar. Explosão. Algumas coisas não fazem barulho. O silêncio prevalece.
E tudo berra mudo. É quando a gente diz que está bem só para bater o ponto da cortesia
e boa educação.
Há também a famosa incerteza
do caminho. A encruzilhada que se impõe. Para qual lado seguir? Crescer... Tem
isso também. Saber para qual lado guiar seus pés.
Como ser mais? Onde ser
mais? Onde significar mais?
A gente vive como andarilho
percorrendo caminhos desconhecidos e obscuros procurando gente que nos preenche
e faz sentido. Preenchendo cadastro de emprego online. A gente quer fazer sentindo nessas linhas bizarras dos dias. Meu
maior desejo é esse, fazer sentido e me mudar para São Paulo.
O que fazer quando você é seu próprio vilão? Quando você é o único personagem que bagunça a própria história? Não dá para culpar a vida.
Não dá para encarnar o mocinho sofredor sempre. Porque se a dor molda quem
podemos ser, eu quero ser alguém com marcas bem saradas, curada.
Crescer pode ser também uma
espécie de “se refazer”. É saber que não existe a pílula da felicidade. Só na
música da Norah Jones, que é só uma canção.
De todas as fases em preto e
branco do meu filme, essa seja talvez a parte em que algo realmente pode ser
visto com um olhar mais colorido. Não dá para ver sempre cinza ou nublado. Não
dá para viver sempre andando em círculos medonhos de comiseração.
Por todas as coisas somos
feitos dia após dia. Por todas as coisas e todas as tentativas somos moldados.
Por todas as coisas somos quem decide que papéis vamos querer encarnar pelo
resto da vida. Eu quero interpretar eu, mesmo sem saber ao certo quem é esse ser estranho que se embaralha, tropeça, cai, tenta, levanta e corre sempre querendo
ser mais do que um corpo ocupando espaço no palco.
Por todos os
arrependimentos, falhas, defeitos e uma série de outras coisas ruins, há de
existir uma cor bonita e que eu irei gostar. Eu só preciso olhar direitinho. Só
um minuto.

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